Imagem ilustrativa da imagem Memórias de um grande escritor
| Foto: André Conti/ Estadão Conteúdo
Ignácio de Loyola Brandão: "Nesse Brasil, viramos inimigos um do outro. É um país dividido"



Ignácio de Loyola Brandão não gosta da ideia de que suas lembranças e as histórias que viveu caiam no esquecimento - dele, inclusive. Por isso também, ele escreve. Mas garante que faz isso tudo sem nostalgia e que jamais entraria na máquina do tempo e voltaria para a Araraquara da sua infância e juventude. "Meu tempo é esse", afirma. A perplexidade despertada pelo momento atual o levou a fazer algo que não fazia há 10 anos: escrever um romance. Era com "Desta Terra Nada Vai Sobrar a Não Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela" que ele queria comemorar o aniversário, mas não gostou do rumo que a história estava tomando, recomeçou do zero e não pôde terminar. O livro novo não faz exatamente uma reflexão sobre o Brasil de hoje, mas reflete esse país que vem assombrando o escritor.

Antes disso, porém, apresenta "Se For Pra Chorar Que Seja de Alegria" (Global), com uma seleção de crônicas, quase todas publicadas no Caderno 2, cujo lançamento aconteceu na última quarta-feira, na Livraria Martins Fontes, da Av. Paulista, em São Paulo. Este é só o começo dos festejos. No domingo, Ignácio e sua filha Rita Gullo fazem o show "Solidão no Fundo da Agulha" no mesmo local, às 13 horas.

Cronista do jornal O Estado de S. Paulo há 23 anos, Loyola Brandão acaba de ganhar o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, no valor de R$ 300 mil, pelo conjunto da obra. É o triunfo do escritor que queria ser cineasta - sonho realizado pelo filho. Mas eram outros tempos e ele, que foi também jornalista, descobriu como era gostoso escrever romances e contos. Ignácio conversou com o Caderno 2 sobre literatura, memória, tempo, a influência do pai e muito mais.

São 80 anos de vida, 51 desde a publicação da primeira obra e muita história para contar. Devem cobrá-lo por um livro de memórias, mas não é isso o que o senhor vem fazendo nas crônicas?

Sempre. Mas nunca vou escrever isso, não tenho nada o que dizer. Mesmo porque na biografia não posso inventar e nas crônicas eu invento muito. O que faço é um pouco aquela "quase memória' do Carlos Heitor Cony. "Solidão no Fundo da Agulha"
é uma quase memória.

O passado está sempre presente em seus livros.
É uma memória, mas sem nostalgia. Eu não sou saudosista. Conto coisas que aconteceram no passado, mas não quero voltar. Meu tempo é esse. Era tudo muito chato. Com 20 anos era tudo proibição. Vivi numa cidade sem telefone, sem diversão, cheia de preconceito. O mundo era muito fechado, pequenininho. Gosto de fazer essa memória para não perder essas coisas.

O mundo, hoje, está mais chato?
Ele está complicado. Nunca vi tanto ódio, incompreensão, agressão, despautério. Nesse Brasil, viramos inimigos um do outro. É um país dividido. Se você for defender uma ideia política, o cara pode te dar um tiro. Eu peguei a Revolução Socialista, que ia mudar o mundo. Não mudou. Hoje, não sabemos o que pode mudar o mundo. Essa impotência é que paralisa. As tais utopias. Cadê? Quais são? O que é política hoje? Eu imagino, nesse livro novo, o parlamento se dissolvendo como uma geleia.

"Desta Terra Nada Vai Sobrar a Não Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela" faz uma reflexão sobre o Brasil atual?
Não, só conta. Vai ser meio fábula, meio fantasia, mas com muita realidade.

O senhor acaba de ganhar o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Já quis ser imortal?
Nunca me passou pela cabeça, mas esta tem sido a pergunta mais frequente nos últimos dias. Confesso que foi um momento mágico ganhar o Machado de Assis, recebê-lo com pompa. Me fez pensar. É decisão difícil, tentadora. Mais da metade dos acadêmicos é de amigos meus. Mas será a hora? Não seria necessário antes um "namoro", como me disse uma amiga acadêmica? Frequentá-la mais, conhecer os mecanismos, participar. Amadurecer, primeiro.

Que balanço o senhor faz desses primeiros 80 anos?
Foram bem vividos. Fiz tudo o que eu queria fazer. E tudo o que eu queria fazer era escrever. Vivi disso - como jornalista e depois como escritor. Encontrei uma mulher sensacional, a Marcia. Tive filhos. Já fui muito ansioso e hoje sou menos. A experiência do aneurisma foi fundamental e minha vida é outra depois dele. Não tenho mais pressa.

E tem medo de alguma coisa?
Da morte eu não tenho mais. Sei que ela vai chegar uma hora. Não tenho medo do que vou encontrar lá. Quem sabe há um universo paralelo, outra vida, vida nenhuma? Tenho medo de ter uma longa doença e ir me decompondo. E tenho outro medo, que faz minha mulher e minha filha rirem muito, que é de virar morador de rua e ficar andando com o cobertorzinho para lá e para cá.

Serviço
Se for pra chorar que seja de alegria
Autor: Ignácio de Loyola Brandão
Editora: Global (184 págs.; R$ 39,90)

mockup