Michele Muller
De Curitiba
Especial para a Folha2
Ipanema e seus personagens serviram de base para o mais novo livro de Ruy Castro. Ele esteve em Curitiba para o lançamento de ‘‘Ela É Carioca’’ e conversou com a Folha2
O jornalista Ruy Castro não hesita em apontar três palavras que melhor definem Ipanema: vanguarda, coragem e independência. São justamente essas as qualidades comuns a todos os personagens biografados em seu mais recente livro, ‘‘Ela É Carioca’’ (Cia. das Letras, 452 pgs. R$ 33,50), cujo cenário é o bairro do Rio de Janeiro onde floresceram as mais importantes manifestações culturais do País.
Estruturada na forma de uma enciclopédia, a obra reúne 231 minibiografias de figuras que fizeram daquele pedaço de terra um lugar quase paradisíaco, núcleo irradiador de ousadia e originalidade. Na democrática lista de biografados escolhidos pelo escritor figuram audaciosas garotas de Ipanema, compositores, escritores, cineastas, atores, políticos e jornalistas. Também mereceram virar verbetes as gírias originadas naquela praia, os movimentos artísticos e os bares onde personalidades circulavam entre os anos 20 e meados da década de 70.
O bairro não se transformou em reduto de rebeldes criativos por acaso. Por oferecer um custo de vida barato nas primeiras décadas do século, atraiu uma enorme quantidade de imigrantes foragidos de países sob a ameaça de guerra. ‘‘Eram estrangeiros de alto nível cultural que se instalaram ali, trazendo ao País novos costumes’’, explica o escritor. ‘‘Eles se misturaram com os brasileiros e assim formaram uma cultura liberal, corajosa e não-conformista que pôde se desenvolver porque não tinha ninguém olhando nem interferindo.’’ Essa falta de interferência se deve ao fato de Ipanema ser pequeno, isolado, e de difícil acesso na época.
De todos os títulos assinados por Ruy Castro (autor de ‘‘Estrela Solitária’’, ‘‘O Anjo Pornográfico’’, ‘‘Chega de Saudades’’ e ‘‘Saudades do Século 20’’), a pequena enciclopédia carioca foi a que mais rapidamente alcançou o mérito de ter a edição esgotada. Lançada há menos de um mês, já vendeu 25 mil cópias. ‘‘Em uma tarde de autógrafos, em São Paulo, assinei 300 livros’’, conta, surpreso. O jornalista esteve em Curitiba na última quinta-feira, a convite das Livrarias Curitiba, lançando oficialmente a obra na cidade.
A seguir, a entrevista que o Ruy Castro concedeu à Folha2.
Todas as histórias do livro foram baseadas em depoimentos?
Nesse livro não. Como são 231 minibiografias, não haveria tempo nem condições de falar com tanta gente. Assim que me convencia de que a pessoa se enquadrava dentro do perfil de Ipanema, eu fazia uma longa pesquisa, às vezes apurando algumas coisas com ela própria, às vezes com terceiros. Procurei dar uma visão original às biografias – o que foi um dos grandes problemas do livro. Como eu ia falar de novo sobre o Vinícius de Moraes? Mas acho que em muitos casos consegui descobrir um ângulo original para falar dos personagens.
Muitas das histórias que você conta têm base apenas em depoimentos, tanto nesse quanto em seus outros livros. Você não acha que corre o perigo de se deparar com discursos emocionais que podem tirar o caráter objetivo da pesquisa?
Mas se eu não fizer isso, vou me basear em quê? No que já está impresso? E quem garante que aquilo que está impresso também não está baseado em depoimentos emocionais? Então o que acontece é o seguinte: depois de muito tempo mergulhado num trabalho (eu levei dois anos para concluir o livro), já sou capaz de saber se a pessoa está sendo fiel ou não à verdade, se a informação que ela está dando é plausível ou não. É claro que num livro como ‘‘Ela É Carioca’’ esse envolvimento não acontece da mesma maneira, pois pesquisei sobre centenas de pessoas.
A imagem de Ipanema mudou bastante. Você acha que o livro desperta um certo saudosismo no leitor?
Não foi a minha intenção, mas não posso proibir que as pessoas sintam saudades de uma época. Eu não dei um caráter nostálgico, mas falo de uma realidade – dos anos 20 aos 70 – que foi tão extraordinária que até quem não viveu aquele tempo lê o livro e acha que Ipanema era o paraíso. E talvez fosse mesmo.
Ipanema teria um personagem principal, que fosse o centro da história do bairro?
O máximo que se pode encontrar são pessoas que reúnam todas as características de Ipanema a partir de uma certa época. Uma dessas pessoas seria o Tom Jobim. Ele era um rapaz de praia, atleta, extremamente bonito, engraçado, boêmio e criativo. Mergulhava e nadava como um peixe. Só se tornou compositor porque caiu do alto de uma pirâmide humana e teve um problema na coluna.
As garotas de Ipanema modelaram o tipo físico e a personalidade da mulher brasileira típica?
Eu não tinha pensado nisso. Talvez por causa delas exista a idéia de que a mulher não precisa ter o corpo de violão. Elas podem ter criado, no Brasil, o conceito da mulher interessante, não exclusivamente bonita – embora existisse uma quantidade enorme de ‘aviões’ em Ipanema. Tanto que a expressão ‘‘ela é um avião’’, assim como tantas outras, foi criada lá.
A grande concentração de bares em Ipanema foi responsável pela democracia existente no local, na época?
Um dos cenários onde as coisas aconteciam em Ipanema era a praia. O outro eram os botequins. Os bares não eram frequentados apenas pelos bebuns, mas também por famílias e por pessoas importantes. Políticos, presidentes da República moravam em Ipanema, e sentavam-se na mesma mesa que os bebuns. O dinheiro não tinha muita importância no Brasil até meados dos anos 60.
Os movimentos culturais brasileiros mais importantes nasceram em Ipanema nas décadas de 60 e 70, como a Bossa Nova e o Cinema Novo. Aconteceu uma despolarização da cultura?
Parece que aconteceu isso sim. Existiu esse tipo de núcleo não somente no Brasil, mas em outros lugares importantes. Em Paris, no começo do século, uma quantidade enorme de artistas plásticos, como o Picasso, Paul Klee e Mondriant moravam em Mont Martre. Talvez eles vivessem ali porque a luz era melhor; ou porque era um lugar mais barato, e eles ainda não tinham dinheiro. O Greenwich Village, em Nova York, também foi, em grande parte deste século, o bairro boêmio onde os grandes criadores moravam. Nas cidades grandes sempre existiam núcleos criadores, que se dispersaram porque os centros urbanos cresceram demais.
De que maneira você acredita que o humor entra em suas obras? Você escuta as histórias pescando os fatos bem-humorados, ou a graça surge na hora de escrever?
Essa coisa de trabalhar com o humor ou com o drama não sou eu quem decide, é o personagem. Tanto que em ‘‘Ela É Carioca’’ existem muitos fatos dramáticos. Eu não me sento com a obrigação de escrever engraçado, porque não sou humorista. O Luís Fernando Veríssimo tem uma definição muito boa: ‘‘Há uma grande diferença entre você escrever coisas engraçadas e escrever engraçado.’’ Ele mesmo se inclui na segunda categoria. Talvez eu me inclua também.

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