Um tom de viagem pelo tempo - assim é a exposição que a artista plástica carioca, Monica Barki, inaugura hoje, às 19 horas, na Sala Theodoro De Bona, do Museu de Arte Contemporânea. Batizada ‘‘Pinturas & Caixas-Objetos’’, ficará nesse local até o dia 20 de junho.
Ao todo são 22 obras - 12 pinturas em acrílica sobre tela, e dez caixas-objetos - onde a artista mistura assemblage e pintura, formando assim nichos de memória e invenção plástica. ‘‘São memórias, resgates da infância, aquilo que fui guardando pela vida’’, explica.
Nesse passeio a uma paisagem por onde andou, Monica resgata de tudo um pouco: documentos antigos, velhas notas fiscais da fábrica do pai, roupas, xales, colares, brinquedos - e os transforma nas telas e nas caixas, como um inventário daquilo que teve sua própria mocidade.
Esta é uma fase mais serena da artista, que nunca deixou de se colocar, e colocar sua família, em sua obra. Como uma contadora de histórias, ela de certa forma compõe crônicas enquanto trabalha com os pincéis ou objetos. Mas antes a inquietação ia para outro lado. ‘‘Eu era irônica’’, confessa.
Naqueles olhares de soslaio e risos dúbios criticava a repressão sexual dos anos 40/50. Eram tempos de uma arte hiper-realista. Hoje busca a textura, a ligação entre as cores, os traços, as formas com que compõe sua pintura. ‘‘Passei a ver o espaço de forma diferente. Mudei muito’’, continua. Movimenta elementos da pintura para os objetos e vice-versa, criando duplicidades sutis. ‘‘A visualidade para mim é muito importante’’.
Monica Barki concorda que reconta a vida através de seus trabalhos, mas a história é apenas um pretexto para colocar em cena a sua arte. Porém, nada ali é ficcional. Desde o boneco em meio a panos, como um emblema da Panair do Brasil, a aviação aérea desaparecida durante a ditadura militar.
Ao longo da exposição percebe-se a tendência das malas e bolsas abertas, mostrando seu conteúdo, o que não deixa de ser a confissão da pintora sobre seus guardados. O avesso dos bordados, das valises, dos vestidos é outra marca de sua criação. ‘‘Gosto de mostrar como as coisas são feitas, o interior que elas trazem’’, conta.
Mas como está sempre puxando do poço o que passou, é como se resgatasse lembranças e um mundo que deixou de existir. Há sempre alguma coisa de passagem, talvez por isso mesmo as bolsas, a mala e até uma trouxa de roupa, pintada num recorte de madeira. Parece que a vida é um constante caminhar, um passeio sem fim.
‘‘Aprendi com meus pais a guardar as coisas. Eles também me dão material, conteúdo para aquilo que faço’’, afirma. Sem interesse algum em submeter-se à moda, Monica Barki passa longe das instalações, das cores neutras e economia dos traços. ‘‘Estou preocupada com minha essência, meu interior, meu mundo que é todo colorido e profundo’’.
Ela está vindo com seus trabalhos de duas exposições em Minas Gerais: Tiradentes e Belo Horizonte. Com essas mesmas obras estará no segundo semestre na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Falta definir a data. E em março do próximo ano fará outra no Rio de Janeiro.
Mas na semana que vem inaugura no Terminal Barra Funda, na capital paulista, um grande mural com 4 metros de comprimento por 1m80 de altura. Ali, onde se dá a confluência de linhas férreas com as de metrô e ônibus, é o local ideal para sua obra pois, seguindo sua marca, o tema é uma viagem ao passado. Nada mais natural que retratar o passeio, seja para quem embarca ou desembarca na estação. Todos estão rumo a um destino, na andança que não tem fim.

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