Ingênua, crédula e uma mulher de fé, Duzolina Bacineli Carreteiro é descrita em "Diálogos com Duzolina" (Letra e Forma Editora, 2023), como alguém saudosista, pois gostava de falar dos antepassados italianos e contar histórias da vida dela. Em 148 páginas, a jornalista londrinense Elizabeth Bacineli Carreteiro documenta a trajetória ímpar de sua mãe, falecida em 2022, aos 93 anos de idade. "Lutou por cada vitória e pautou sua vida pela bondade e amor ao próximo", integra a apresentação da escritora.

Não bastasse a retidão como levava a vida, Duzolina ocupou-se em registrar em um caderno, histórias da infância na zona rural e de como nasceram os sonhos de um dia aprender a costurar e se tornar professora.

A autora conta que encontrou as anotações da mãe cinco meses da sua partida e, nas 80 páginas manuscritas com sua letra cursiva, reconectou-se com amada. "Ela começou a escrever em maio de 2012, quando já estava com 83 anos. A memória intacta descreve histórias vibrantes", admira.

A felicidade das pequenas coisas, era marca da genitora. Duzolina passou parte da infância na casa dos avós maternos, via a avó costurar os ternos do avô e inspirou-se nas tias eram professoras. "Aos sete anos, decidiu que ia aprender a costurar e um dia seria professora. Uma ambição modesta para os dias de hoje. Mas para a menininha que morava na zona rural, na década de 30, era um grande desafio. Ela buscou a realização desses sonhos, incansavelmente, com muita garra e determinação", descreve.

Exímia costureira, fazia até vestidos de noiva. "Eu trabalhava num salão de costura durante o dia e fazia o curso de corte e costura à noite. O primeiro vestido de noiva que eu fiz foi para a minha cunhada Marta. Costurei ainda as roupas da minha mãe, da minha irmã Maria (tia Quita) e o meu vestido. Eu e minha irmã fomos madrinhas do casamento. Sentia-me muito feliz, pois aos poucos estava conseguindo tudo que eu sonhava”, escreveu em seu caderno.

Professora, costureira, mãe, esposa, dona de casa, bordadeira e crocheteira. Ela era multitarefa. Talentosa. Fazia tudo com esmero. Costurou e bordou à mão um enxoval com peças primorosas. Bordados Richelieu, tramas com fios de seda, de linho e de algodão coloridos, minuciosamente aplicados em tecidos de cambraia, organza e musseline, quase sempre brancos. Toalhas de mesa requintadas. Jogos de cama finíssimos. Muitas peças ela nem chegou a usar. “Dá dó de usar. É tão lindo”, ela dizia.

Gostava de cozinhar e cozinhava muito bem. Os preferidos eram os típicos italianos, como polenta e macarrão. Mas preparava outros pratos com maestria, como pernil de porco à pururuca. Depois da carne assada, ela jogava o óleo fervente sobre a pele para conseguir o efeito pururuca. Fazia um cupim de panela que nunca consegui replicar. Era divino. A carne e a batata ficavam douradas, na textura exata, com o tempero caprichado. Feijão de caldo grosso e arroz soltinho eram o básico do dia a dia, acompanhados de carne e salada. Quando éramos jovens, a casa estava sempre cheia nos finais de semana com amigos, parentes e agregados.

Duzolina casou-se com Humberto em 27 de maio de 1954. Entre as curiosidades, a autora conta que seu pai nasceu no dia 27 de março de 1933 a bordo do navio de bandeira italiana “Conte Biancamano”. Era um transatlântico de luxo e Humberto foi batizado na capela do navio. Recebeu um nome que homenageava o navio e o comandante: Humberto Henrique Fernandes Biancamanno Carreteiro Sanches.

No início da década de 60, a família se mudou da rua Xavantes para a rua Carajás, também na Vila Casoni. Era uma casa de fundos, acolhedora, com muitos pés de frutas no quintal. Ficava localizada num ponto estratégico, perto de tudo: a duas quadras da casa da vó Prosperina, que morava ao lado da escola onde minha mãe dava aula.

"O Humberto trabalhava numa empresa muito boa, a Anderson Clayton, uma multinacional que pagava muito bem. Não faltava nada em casa. Trabalhávamos muito, os dois, para dar uma vida melhor aos nossos filhos. Eu dava aula no Grupo Escolar da Vila Casoni, cuidava da casa, das crianças e ainda dava aulas particulares. No Brasil, o professor não é valorizado e o reflexo disso, é que os salários sempre foram muito baixos. Infelizmente, depois de décadas, a gente constata que essa realidade perdura até os dias de hoje. Mas, mesmo com o salário não sendo muito, eu conseguia comprar muitas coisas para a casa e para as crianças", escreveu Duzolina.

A autora escreve que no período em que o pai trabalhou na Anderson Clayton e a mãe acumulou a jornada no Willie Davids com aulas particulares em casa, eles conseguiram juntar dinheiro para comprar a primeira casa própria, que ficava na Vila Recreio. "No terreno havia uma construção de madeira antiga, que foi demolida. Meu pai e Antenor, um amigo dos tempos em que ele era carpinteiro, construíram a nova casa, utilizando peroba, madeira de excelente qualidade. No alto da construção meu pai fez um pequeno oratório, onde foi colocada uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, para proteger a casa e nossa família. Quando a casa ficou pronta, em 1966, nos mudamos".

Sempre gostou de plantas. Em todas as casas onde morou, cultivava um jardim sempre florido, com vários tipos de plantas ornamentais. Tinha orgulho de suas roseiras, das primaveras e das folhagens que enfeitavam. Depois que se aposentou tinha mais tempo para se dedicar à jardinagem.

A autora conta que foram impressos 300 livros para distribuição gratuita para familiares e amigos. A obra pode ser lida pelo link https://publicacoes.even3.com.br/book/dialogos-com-duzolina-3383735#!#nav-comentarios

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