Memórias costuradas
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quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Uma exposição de arte no campus da Universidade Estadual de Londrina (UEL) tem emocionado todos os que a visitam. Intitulada "Retalho, um fragmento de vida", está montada na Galeria do Departamento de Artes Visuais, no Centro de Educação, Comunicação e Arte (CECA).
Resultado do trabalho de conclusão de curso (TCC) da aluna Michelli Albano, reúne 3.500 almofadas coloridas - a maioria delas penduradas no teto, outras jogadas ao chão para acomodar o público. A instalação chama a atenção pelo impacto visual, pela ambientação lúdica, mas vai além da - agradável - impressão inicial.
Michelli explica que a montagem é uma "investigação sobre a memória" em que cada tecido usado para costurar as almofadas contém uma lembrança, uma recordação, uma experiência de vida. Ela conta que a ideia para a pesquisa surgiu quando fez uma exposição de almofadas durante o segundo ano do curso.
"Era em outro contexto, mas percebi lá a riqueza de sentimentos e histórias que um tecido traz. Entrei nesses devaneios ao notar que o tecido de uma das almofadas me acompanhava desde o berço", diz.
O processo de criação para o novo trabalho durou um ano. Sua mãe, Maria Aparecida de Lima Pereira, foi parceria no trabalho e costureira de plantão. Todas as almofadas passaram por sua agulha.
Os tecidos foram doados por amigos, familiares e desconhecidos. "Teve gente que mandou do Líbano, de Portugal, de outros lugares fora do Brasil", conta a artista. A cada colaborador, ela pedia a gravação em áudio e vídeo de um relato sobre o pedaço de pano que doara. A maioria evitou o registro, por timidez e outros motivos. Quem aceitou a proposta, teve seu depoimento documentado para integrar a instalação.
O vídeo com as narrativas está sendo exibido durante as visitações. "Há relatos muitos fortes que mostram como os tecidos são carregados de impregnações individuais. As pessoas olham para ele e lembram de fatos do passado, especialmente das perdas. As almofadas ajudam a eternizar essas memórias", salienta.
Num dos relatos, um homem lembra da textura da pele de sua mãe ao falar da camisa xadrez que fora o último presente que recebera dela. Em outro, uma mulher conta que o fragmento de pano doado era de um tecido com mais de 50 anos, que pertencera ao enxoval da mãe e havia sido usado no velório de seu irmão. Uma outra gravação traz o depoimento de um homem que descobriu ser portador do Mal de Parkinson quando costurava uma roupa para a festa junina. Ele lembra que, na ocasião, começou a tremer e perder o controle dos movimentos. Conseguiu assim diagnosticar a doença que mudaria sua vida.
A exposição está aberta desde o dia 4 de novembro. Ao observar os visitantes, Michelli fez uma constatação: "As pessoas têm reações diferentes antes e depois de ouvirem as histórias sobre os tecidos. Depois que ouvem os depoimentos, ficam emocionadas e querem procurar as almofadas sobre as quais ouviram os relatos".
A visitação prossegue até o dia 18, com horários diferentes para cada dia. Hoje ocorre entre 14h e 17h; amanhã, das 19h às 22h; sexta-feira, das 9h às 12h e das 14h às 17h; no dia 15, das 10h às 14h; no dia 17, das 14h às 17h; e no dia 18, das 9h às 12 horas.
Serviço:
Exposição "Retalho, um fragmento de vida" de Michelli Albano
Quando - Até o dia 18 de novembro
Onde - Galeria do Departamento de Artes Visuais/Ceca (campus da UEL)
Informações - (43) 3371-4498


