O escritor e acadêmico Josué Montello não deixa passar uma oportunidade em branco. No ano passado, lançou ‘‘Memórias Póstumas de Machado de Assis’’ em homenagem aos 100 anos da Academia Brasileira de Letras, instituição fundada pelo autor de ‘‘Dom Casmurro’’ em 1897. Agora, ele recorda os 90 anos de morte do chamado ‘‘Bruxo do Cosme Velho’’ com o lançamento de ‘‘Os Inimigos de Machado de Assis’’. O livro analisa a crítica ferina e mordaz de nomes famosos, como o crítico Sílvio Romero e o poeta simbolista Cruz e Sousa, a um dos maiores escritores da literatura brasileira. ‘‘Toda data é sempre um bom pretexto para valorizar a figura de um homem singular como Machado’’, justifica.
A admiração confessa de Josué de Souza Montello por Joaquim Maria Machado de Assis é antiga. O primeiro livro que escreveu sobre o autor de ‘‘Quincas Borba’’ foi ‘‘O Presidente Machado de Assis’’, de 1958. Nele, Montello conta a passagem do escritor pela Academia Brasileira de Letras. Passados 40 anos, Montello já contabiliza 133 livros lançados, quatro deles sobre Machado de Assis. Aos 81 anos, ele não esconde que a produtividade literária é resultado de uma rígida disciplina herdada desde a infância em São Luís, no Maranhão. ‘‘Não durmo mais que três horas por noite. Aprendi que é pelo trabalho que se conquista a longevidade’’, acredita.
Quando começou sua admiração por Machado de Assis?
Josué Montello - O primeiro livro que li dele foi ‘‘Histórias da Meia-noite’’, em 1930. Eu ainda morava em São Luís e usava calças curtas. Machado de Assis foi um exemplo de homem que, mesmo em face das maiores adversidades, conseguiu ser o maior escritor do País. Ele nasceu no Morro do Livramento, no Rio, ficou órfão de pai e mãe ainda criança, não frequentou escola e ainda trabalhou como vendedor de balas. Mesmo assim, tornou-se uma figura exemplar.
Como surgiu a idéia de escrever um livro sobre os inimigos de Machado de Assis?
Josué Montello - Não existiu um grande escritor sequer que não tenha tido opositores. É preciso lembrar que Goethe, por exemplo, foi chamado de asno pelo poeta francês Paul Claudel. Shakespeare mereceu da parte de Leon Tolstoi um livro só de contestação. Com Machado de Assis, não foi diferente. Simultaneamente aos muitos louvores que recebeu, Machado também foi alvo de duras críticas. Muitas delas, injustas.
Ele rebatia as críticas que recebia de seus adversários?
Josué Montello - Não. Machado sempre foi um homem avesso a polêmicas. O crítico Sílvio Romero, por exemplo, escreveu um livro de 350 páginas com duras restrições à obra do escritor. A única ressalva que Machado fez foi em relação à foto publicada na contracapa do livro: ‘‘O retrato que escolheram me torna mais feio do que sou.’’
Nestes 90 anos surgiu algum outro escritor à altura de Machado de Assis?
Josué Montello - Receio que não. O que caracteriza Machado de Assis é o fato de ele não ser tão somente um escritor brasileiro. À medida que o tempo passa, ele se transforma também num escritor universal. Em todo o país em que a literatura é compreendida como obra de arte, Machado representa dignamente a cultura brasileira.
Até que ponto a literatura de Machado influenciou sua decisão de se tornar escritor?
Josué Montello - Influenciou, principalmente, no que diz respeito ao exemplo pessoal. Agora, sempre me senti na obrigação de ser fiel a mim mesmo na hora de escrever uma carta, um romance ou seja lá o que for. Sempre tomei cuidado para não me tornar carbono de ninguém. Quem não consegue ser fiel a si mesmo corre o grave risco de ser marginalizado.
Os Inimigos de Machado de Assis é o seu 133º livro. Como você explica tal produtividade?
Josué Montello - Normalmente, não tenho muito o que fazer em casa... Ah, estou brincando. Enquanto eu tiver o que dizer, continuarei escrevendo. Agora mesmo estou terminando de escrever um livro que vai se chamar ‘‘O Juscelino Kubitschek de Minhas Recordações’’, com cerca de 100 cartas escritas pelo próprio Juscelino. O ex-presidente se dizia uma pessoa muito só e infeliz. Esse livro é importante por retratar um período recente da História do Brasil.Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasJosué Montello: ‘‘Quem não consegue ser fiel a si mesmo corre o grave risco de ser marginalizado’’André Bernardo
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