MEMÓRIA VIVA - Músico do Bando da Lua sobrevive praticamente nas ruas
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terça-feira, 30 de outubro de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A lua já teve dono. O bando que escondeu a sua luz própria atrás da estrela Carmen Miranda. Bob Lester, o músico Edgar de Almeida Negrão de Lima, um astro da metade do século passado e um dos seis rapazes do conjunto musical que acompanhava a ''Pequena Notável'', impressionou Frank Sinatra, tocando na orquestra do ''Ol' Blue Eyes'', ou os ''Velhos Olhos Azuis'', como o ícone da música americana também era chamado.
Único integrante vivo do Bando da Lua, aos 94 anos, Lester, que conquistou a América com Carmen, participando de filmes ao lado da estrela, como ''Uma Noite no Rio'', ''Secretária Brasileira'', ''Aconteceu em Havana'', além de oito discos, hoje é um senhor, que as pessoas não reconhecem na rua e algumas até chegam a duvidar de sua história.
Atualmente, para sobreviver, o gaúcho de Santa Maria (RS), que antes de ganhar o mundo e atuar também com Bob Hope e Doris Day, conquistou o Rio de Janeiro, se apresentando no Cassino da Urca ao lado de Oscarito, Grande Otelo e a famosa vedete francesa Mistinguette, conta com doações e parcos cachês que recebe em shows de churrascaria, sendo que muitas vezes dorme em bancos de rodoviárias. Nas apresentações, além de jazz, country, blues, ele sapateia e faz imitações de B.B.King.
Verbete da Enciclopédia de Música Brasileira Popular, Erudita e Folclórica, Lester diz que ainda tem o par de sapatos que ganhou de Fred Astaire, com quem aprendeu sapateado, mas o violão, que há mais de 40 anos trouxe do Canadá, e um teclado foram roubados na rodoviária de Juiz de Fora (MG).
Partindo desse episódio, esta semana Lester desembarcou no terminal rodoviário londrinense, onde passou a noite, mas as suas reminiscências ainda descem as escadas do avião nos EUA, em 1936, juntamente com Carmen e o Bando da Lua, que era formado pelo ritmista, os irmãos Estênio e Osório, Luiz de Oliveira, Nanai e Russo do Pandeiro.
''Nós viajamos com passagens que ganhamos do Osvaldo Aranha, amigo de Getúlio Vargas. Ao desembarcarmos em Nova York, fomos recebidos por Fred Astaire, Frank Sinatra, Daris Day e Bob Hope e nos hospedamos no Astoria Hotel Waldorf. Ficamos um ano hospedados até que Carmen alugou uma mansão para ela'', conta Lester que começou a carreira com a ajuda da mãe, pianista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, que o levou ao Rio de Janeiro e o entregou para Ary Barroso, que comandava um programa radiofônico.
Lester conta que venceu um concurso de calouros ao lado de Aracy de Almeida, sendo ambos considerados nota 10, ganhando como prêmio 10 mil réis.
''Ao vencer o concurso fui contratado pelo Joaquim Rolla, dono do Cassino da Urca. Carmen gostou também de mim e me convidou para fazer show com ela'', completa o músico, que fala com fluência seis idiomas.
Ele lembra que o Bando da Lua foi formado por um grupo de jovens do bairro do Catete, que moravam na Avenida São Jorge e que antes participava do conjunto musical de Pixinguinha.
O Copacabana Palace era o próprio luxo no Rio de Janeiro e o playboy Jorginho Guinle, a cara da sociedade carioca da época - um dos amigos de Lester, que teria morado de graça no famoso hotel.
''Naquela época, os artistas ganhavam cachês semanais no Rio. Já nos Estados Unidos, fiz boas amizades. A Carmen era muito famosa. Lembro que num dia ela estava no palco e esqueceram a janela aberta. O vento levantou o vestido dela, mostrando a calcinha vermelha. Na platéia, além do prefeito de Nova York, estava o presidente Roosevelt. O prefeito ficou encantado'', Lester encerra com o comentário, a fase dourada da vida.
Ele conta que nesse período passou por Londrina, tocando na boate da Jô, que em suas lembranças surge como uma das mais famosas.
Lester, que diz ter se apresentado até para a primeira-ministra israelita Golda Meir, conta que com a morte de Carmen, no dia 5 de agosto de 1955, o Bando da Lua se desfez em 1956.
Em 1964 morou na Argentina, sendo investigado pela Interpol e a Polícia da Ordem Política e Social por suas afinidades políticas.
''Fiquei quatro anos cantando tango, contratado pelo compositor Francisco Canário. Ganhei muito dinheiro, cheguei a ter três carros de luxo, mas como Guinle, eu era um playboy. Gastei tudo com mulheres, jogos, cassinos'', completa, lembrando que a derrocada começou depois que perdeu num acidente automobilístico, em 1973, a esposa, duas filhas e a mãe.
''Hoje ando pelo Brasil todo, tentando me apresentar. No meu show faço um pouco de tudo. Estava parado em Juiz de Fora. Dormia na rodoviária e quando acordei tinham roubado o violão e o teclado. Quero que alguém me faça a doação de um violão para que possa continuar me apresentando. Acho que os brasileiros não valorizam os seus artistas. Quando a gente fica grisalho, não dá ibope e tudo vai por água abaixo'', conclui Lester, carregando uma pasta de recortes de jornais com fotos e reportagens dos amigos do passado como Sami Davis Junior. Um verbete da Enciclopédia de Música, que tem as mãos gravadas na Calçada da Fama, que fugiu do Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, esquecido nas ruas.


