Memória tangível
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de outubro de 2008
Francismar Lemes<BR>Reportagem Local 
As coisas que são tangíveis não poderiam tornar-se invisíveis e sempre deveriam estar tão próximas e ao alcance da palma da mão. É por essas e outras razões que para Drummond amar o perdido deixa confundido o próprio coração.
O que o poeta Carlos Drummond de Andrade sabia desse amor, a memória, os moradores da Vila Brasil, em Londrina, estão convencidos. Resgatar a nossa história é muito importante. Tudo depende do passado. Uma cidade que não tem memória sofre de uma amnésia coletiva. A afirmação do funcionário público aposentado, Angelo Caires, 59 anos, morador do bairro desde os seis meses de idade, é uma página preenchida com palavras que mesmo sem rimar entre si compõem um verso feito de saudade, lembranças, reminiscências e que voltou a ser lido por ele e outros moradores, através do Projeto Roda Memória.
Um álbum de retrato vivo com a história de 10 moradores será aberto para toda a comunidade no documentário Memória da Vila. A exibição de estréia do circuito itinerante ao ar livre será amanhã, na Praça em frente à Vila Cultural AlmA Brasil. Uma cabine de gravação colherá novos depoimentos para outras produções do projeto. A gente que é pobre não tem um nome de rua ou em qualquer outro lugar. Muitos que chegaram outro dia à cidade já receberam título de cidadão honorário e nós que contribuímos com a construção do município não temos importância, comenta a auxiliar administrativo Maria Guidoni, 66 anos, que desde os quatro anos mora na mesma casa do bairro. Com uma lamparina na mão, ela lembra da luz do lampião que iluminou o próprio casamento e de outros tantos que participou na Vila Brasil.
Para Caires, a construção da Avenida Dez de Dezembro é uma marco das mudanças na região, que transformaram o jeito de viver dos moradores. A gente passava a pinguela e já estava no Aeroporto. Com a Via Expressa, a gente foi perdendo os espaços e as brincadeiras. Lembro dos nonos, uns italianos que gostavam de contar histórias. Tinha dia que era só para a garotada. Quando era a vez dos adultos, as crianças não iam, lembra o funcionário público aposentado, que nas suas próprias histórias guarda a lembrança do pai, o carpinteiro José Caires Júnior, construtor de 45 escolas londrinenses.
Memória da Vila é uma produção do Núcleo de Comunicação Popular e Comunitária da Associação Intercultural de Projetos Sociais (AlmA). Sob a coordenação de Cynthia Camargo, produção e edição, Juliana Franco, Marina Casagrande e Rogério Cavalcante; sensibilização do público, Camila Sampaio; trilha sonora, Maurício Werner; tratamento de áudio, André Gião; arte, Daniele Stegmann, e vinhetas, Sassá, o documentário de 30 minutos tornou tangível o que estava quase ficando invisível nas ruas que ganharam pavimentação e novas edificações, substituindo antigas casas de madeira.
Os moradores contaram as suas histórias diretamente para uma câmera sem interferência dos entrevistadores, o que rendeu 12 horas de gravações. Os depoimentos falam da vida, as transformações no bairro, a infância, os casamentos, que são marcados como o grande acontecimento na história de muitos entrevistados, comenta Rogério Cavalcante. Juliana Franco destaca que um dos aspectos importantes do projeto é valorizar a história que não é oficial.
Fotos antigas e atuais do bairro, juntamente com os depoimentos no documentário, são uma via expressa para o que Drummond no poema Memória faz a gente pensar que as coisas ainda que findas... essas ficarão.


