Memória Sertaneja
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Não é preciso mais que um verso para o sertanejo esconder nas entrelinhas os sentimentos. Numa moda então, ele coloca toda uma vida. É esse cotidiano rural, capaz de encher os olhos com a lua prateando a solidão, que torna algumas composições memoráveis. Como ''Luar do Sertão'', de Catullo da Paixão Cearense, composta em 1908.
Sob essa luz, o historiador londrinense Renê Faria Filho percorre 100 anos de música sertaneja no segundo volume do livro ''Memórias Sertanejas - Um Século de Música Caipira'' (Moriá Editora), que deve ser lançado no início de 2009.
A exemplo de algumas músicas caipiras que nascem da tradição oral, a compilação sobre a trajetória do gênero musical ao longo do século surgiu de uma situação inusitada, que mais parece um causo. ''Fui ao velório do avô de uma amiga. Fiquei surpreso ao ver o falecido de chapéu. Soube que era porque gostava muito de música caipira. Aí vi que não tinha nada para manter a memória e valorizar o sertanejo. Resolvi iniciar a minha pesquisa'', conta Filho.
O livro traz letras de clássicos, como ''Berrante de Madalena'' (1966), de Silveira & Silverinha; ''Chico Mulato'' (1937), de Raul Torres & Florêncio, e ''Chitãozinho & Xororó'', que antes de ser uma das duplas mais bem-sucedidas do mundo sertanejo, é o nome de uma música de 1947.
Todos as letras são cifradas para violão e viola. O autor também reúne curiosidades sobre o universo sertanejo, como a da música ''Fuscão Preto'', um vanerão de Atílio Verssutti e Jeca Mineiro, de 1979. ''A idéia da música, segundo relatam os intérpretes, Geovante & Mariel, surgiu quando estavam trabalhando como pintores de parede. Um dia, viram um casal dentro de um fuscão preto. Reconheceram a mulher, uma senhora casada e ficaram imaginando a confusão que seria se o marido aparecesse. A história foi contada para Atílio, que resolveu fazer uma música''.
Para se dedicar à pesquisa, Filho abandonou a carreira no Banco do Brasil, enveredando em sebos e bibliotecas pelo País, atrás de livros e revistas raras sobre a música caipira. Cornélio Pires, Inezita Barroso, Délio & Delinha, Dino Franco e Tonico & Tinoco, têm um capítulo especial na compilação. Para o autor, estes últimos representam a maior dupla de todos os tempos porque nunca perderam as raízes.
Em sua pesquisa, Filho também contou com um acervo de recortes de matérias e reportagens sobre a música sertaneja publicadas na Folha, desde 1954. Ele conta que a maior dificuldade que encontrou foi selecionar 100 músicas entre 600 que reuniu para compilar no segundo volume. ''Algumas gravações que encontrei tinham qualidade ruim por serem captadas em programas de auditório. Ficava difícil compreender a letra das músicas para reproduzir no livro''.
Para os que ainda não estão familiarizados com o jeito de ser do sertanejo, Filho fez uma seleção do melhor do palavreado caboclo extraído do dicionário ''Dialeto Caipira'', publicado pela Editora Anhambi, em 1921. Verbetes como ''campiá'' (procurar), ''pereva'' (ferida) e ''módi quê'' (para quê) têm graça, mas também a poesia de encher os olhos de um luar prateando a solidãoá.


