Memória politicamente incorreto
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terça-feira, 01 de novembro de 2005
Nelson Sato<br> De Londrina 
O que ficou conhecido como ''delito italiano'' permanece aberto a suspeitas e especulações. A morte do poeta, escritor, ensaísta e cineasta Pier Paolo Pasolini manteve-se ao longo dos últimos trinta anos sob o estigma das ''circunstâncias não esclarecidas''. Na versão oficial, o artista foi assassinado pelo adolescente Giuseppe Pelosi, que confessou o crime após ser preso pilotando o Alfa Romeo de sua vítima. Para os amigos e boa parte dos intelectuais, a morte teria sido consumada por mais de uma pessoa e encomendada por gente graúda.
A tese conspiratória leva em conta os desafetos que Pasolini alimentou na condição de polemista, que o tornaram um incômodo para a esquerda, a direita e o centro do espectro político italiano. Não por acaso, enfrentou 33 processos nas costas. Mais do que um artista, ele era um intelectual militante inconformado com os descaminhos da cultura e da política de seu País. À semelhança de Glauber Rocha, no Brasil, nunca temeu lançar suas idéias provocativas na arena pública seja através da imprensa ou na própria obra ficcional.
Politicamente incorreto, elegeu alvos diversos: burguesia, classe política, igreja, indústria cultural e o poder do consumo (ao qual se referia como a ''última das ruínas''). Nem o movimento estudantil de 1968 foi poupado. Na ocasião da revolta, Pasolini descreveu-a como uma ''briga de família'', uma rixa burguesa. Não seria uma guerra de classes. Eram apenas os filhos de ricos se rebelando contra os pais. À noite, depois dos confrontos de rua, eles retornariam para suas confortáveis casas, enquanto que os policiais estes sim oriundos da classe trabalhadora voltariam às suas vilas pobres.
''Não acredito em direitos civis, acredito em revolução. Ou somos utópicos ou desapareceremos'' proclamava. Em outro texto, Pasolini atacou o Partido Democrata Cristão, que se tornara hegemônico na Itália desde 1948. Dizia que seus membros deveriam ser levados a julgamento, presos e algemados. Homossexual assumido, Pasolini causava desconforto também entre os dirigentes do Partido Comunista Italiano ao qual era filiado. Com frequência era visto ''caçando'' garotos de programa nos bairros periféricos de Roma. Foi expulso do PCI em 1965.
Um de seus filmes, ''La Ricotta'' (1963), escandalizou o Vaticano. Taxado de ''blasfêmia contra a religião do Estado'', o longa mostra um pobre-diabo que vai fazer o papel de Cristo numa montagem da Paixão, come demais e morre de indigestão na cruz. Por causa dele, o cineasta foi condenado a quatro meses de prisão, com sursis. Em outro filme, ''Teorema'', o protagonista (interpretado pelo ator Terence Stamp) é um misterioso visitante (um anjo erótico) que desintegra uma família burguesa modificando o destino de seus membros ao fazer sexo com cada uma das pessoas da casa. O longa rendeu mais dor-de-cabeça a Pasolini, que foi julgado por obscenidade em 1969.
Em ''Saló ou os 120 Dias de Sodoma'' (1975), sua obra-testamento, ele realiza aquele que é catalogado como um dos filmes mais repugantes já visto nas telas. O longa, um estudo sobre a morte, encadeia cenas de escatologia em que todas as relações são permitidas, menos as relações ''normais'', que são punidas com a morte. Pasolini explicaria que o sadismo descrito no filme seria uma alegoria da redução do corpo a mera mercadoria. Contra ''Saló'', levantaram-se ondas de protestos.
Quando anunciou que filmaria a Paixão de Cristo, todos ficaram de cabelos em pé aguardando mais uma heresia. Ele realiza, contudo, a mais pura das versões do ''Evangelho Segundo São Mateus''. Desta vez, o cineasta foi elogiado pelo clero a ponto de conquistar o prêmio Ocic (Office Catholique du Cinéma). Alguns o consideram o melhor filme já feito sobre a vida de Cristo. É a fase em que Pasolini apregoava a restituição do sagrado ao mundo laicizado.
Há quem lhe atribua dons proféticos assinalando suas visões sobre a nova ordem mundial globalizada e culturalmente padronizada. Uma de suas ''causas'' era defender os dialetos regionais como uma forma de resistência contra a uniformização advinda com a cultura de massas. Sua artilharia verbal era pesada contra o que considerava a ''falsa tolerância'' da sociedade de consumo, que chamava de ''novo fascismo''.
A fase de transição de uma cultura agrária ao modo de produção industrial era vivida por ele como uma catástrofe. De acordo com suas reflexões, o novo estágio do capitalismo destruiria a cultura proletária, aniquilando qualquer resquício de tradição humanista. Inconformado com a nova era hedonista, rodou a chamada trilogia da vida (''Decameron'', ''Contos de Canterbury'' e ''As Flores das Mil e uma Noites'') para celebrar o corpo e a liberdade sexual numa Itália camponesa e arcaica.
Em 2 de novembro de 1975, sua vida seria interrompida barbaramente. Poucas horas antes de sua morte, Pasolini concedeu uma entrevista ao jornalista Furio Colombo (do jornal ''Tuttolibre'') no qual revelava que corria risco de linchamento físico, após ser moralmente assassinado pela sociedade italiana. Horas depois, seu corpo seria encontrado com as roupas sujas de sangue, rosto deformado, dedos da mão esquerda decepados, fígado partido e coração estraçalhado. Deixou diversos projetos inacabados incluindo o manuscrito de um romance, três roteiros para cinema e uma série de ensaios críticos.


