MEMÓRIA NORDESTINA
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de julho de 2016
Murilo Pajolla<br> Especial para Folha2 

Londrina se orgulha da pluralidade de nacionalidades presentes em sua fundação. De fato, segundo um relatório da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) publicado na Folha de Londrina em 1935, os lotes de terra vendidos até a primeira metade da década de 30 tiveram compradores de mais de 16 países, entre eles Alemanha, Itália, Inglaterra e Japão. Porém pouco se discute o papel dos brasileiros especialmente os nordestinos que deixaram seus estados de origem para contribuir para o desenvolvimento da maior cidade do interior do Paraná.
Pensando em valorizar o papel dos nordestinos, pesquisadores do Projeto Educação Patrimonial, ligado ao Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC), vasculharam o acervo do Museu Histórico e resgataram histórias de pernambucanos, sergipanos, baianos e cearenses que se tornaram pés-vermelhos. No curso das atividades educacionais desenvolvidas nas escolas municipais, integrantes do projeto passaram a refletir sobre a maneira que as crianças enxergavam os nordestinos.
"A percepção é que os nordestinos vieram trabalhar exclusivamente no campo ou em empregos de baixa qualificação. Durante o estudo, percebemos que havia médicos, engenheiros e outros profissionais liberais, além dos vários prefeitos de origem nordestina que se tornaram referência na cidade, como Dalton Paranaguá, Hugo Cabral e Leite Chaves ", disse o coordenador do projeto, Leandro Magalhães. Outro exemplo é o maranhense Odilon Borges de Carvalho, que foi prefeito de Jataizinho quando Londrina foi emancipada e prefeito interino de Londrina em 1946.
Também vieram do Maranhão na década de 20 os irmãos Palhano. Filhos de engenheiro, todos seguiram a carreira do pai e, a serviço do governo paranaense, fizeram a medição dos lotes de terras que seriam colocados à venda. Instalados na fazenda Palhano, hoje uma das áreas mais desenvolvidas da cidade, os irmãos Kepler, Mábio, Heber, Edson e Dábio fizeram dezenas de incursões pelas matas e pelo rio Tibagi, encontrando indígenas e posseiros que habitavam a região. Foi Heber Palhano que abriu, na década de 40, o primeiro bar londrinense a vender chopp gelado, o Bar Líder, localizado na avenida Rio de Janeiro ao lado das Casas Pernambucanas.

Na década de 20 a propaganda de um Paraná de terra fértil e inexplorada ecoava pelo Brasil. O 13º Boletim do Museu Histórico de Londrina traz um trecho de um relatório de Governo de 1921: "Certo, em nenhuma outra parte da Terra o homem encontrará elementos tão favoráveis ao seu bem-estar, como no Paraná". A região atraiu inúmeras famílias nordestinas que sofriam com os abusos dos cangaceiros, que circulavam pelas cidades espalhando terror. "A maioria das famílias do Nordeste vieram fugindo de Lampião. Temos relatos de famílias que tiveram suas rotinas totalmente transformadas. As mulheres tinham que cozinhar e lavar roupa para os cangaceiros", afirma Aryane Kovacs Fernandes, pesquisadora do Projeto Educação Patrimonial.
O professor aposentado Geir Rodrigues da Silva lembra bem da sensação de medo. "Nós éramos pequenos produtores rurais e papai soube que Lampião andava por aquelas bandas, então decidiu trazer a família para cá", recorda. Junto com pai, mãe e cinco irmãos, Geir saiu do interior do Sergipe e encarou uma viagem desgastante em trens e navios até o interior do Paraná. A família se instalou em uma pequena casa de madeira no final da rua Santa Catarina, na saída para Jataizinho, onde plantavam mandioca, milho, feijão e vendiam frango e ovos.
Hoje, da sacada do seu apartamento na avenida Rio de Janeiro, região central, Geir enxerga o pátio do Colégio Mãe de Deus onde ele e seus irmãos estudaram. "Éramos muito pobres, mas graças à benevolência das freiras, conseguimos estudar muito bem". Depois de terminar o colegial, foi trabalhar no nascente comércio londrinense, então restrito à Avenida Duque de Caxias e a avenida Celso Garcia Cid. "Vendi muitas botas e coloquei muitos chapéus na cabeça do Hugo Cabral, cearense e ex-prefeito de Londrina". Com 85 anos, Geir se orgulha de ter feito parte da história de Londrina e se gaba de saber de cor o hino da cidade que o acolheu aos sete anos de idade. "O meu legado e de outros tantos que vieram para cá é um só: o nosso suor e o nosso trabalho".



