Naquele momento em que o insubordinado caleidoscópio de letras foi se organizando em minha fervilhante cabeça pré-adolescente, saí a correr o mundo no meu quintal de mãos dadas com gente amiga que sabia das coisas. E como sabia! Monteiro Lobato foi o guia das primeiras e muitas lições de Brasil, dentro e fora dos limites do Pica-Pau Amarelo - e através dele ainda tento saber o país, embora cada vez mais difícil. Foi com Julio Verne, no entanto, que aprendi a imaginar sem limites, a bordo de balões, jangadas, submarinos, helicópteros, da Terra à Lua e de volta e direto ao centro da Terra. Pena que Lobato não tivesse por aqui, a seu lado, a caixa de Pandora do cinematógrafo que tantas alternativas complementares trouxe à fantasia e à ficção científica, enriquecendo via Hollywood os delírios da inventiva de Verne.
''Tudo aquilo que um homem pode imaginar, pode ser realizado por outro homem''. Dito por ele, nada mais adequado do que esta frase para se obter a chave de sua obra. Foi um autor - e de poucos se pode dizer o mesmo com tanta propriedade - que se dedicou a imaginar. Quase não possuía base científica, mas sua imaginação para a inventiva mecânica era mais que suficiente, e para a manufatura literária sempre se cercou de muita pesquisa e do contato com investigadores, exploradores e acadêmicos. Por isso, Verne será sempre sinônimo de manancial de idéias, novas e revolucionárias.
Mas sua importância não se restringe a isso. Teve um mérito que também foi virtude: criou um clima poderoso. Arrastou a imaginação dos jovens. Despertou a curiosidade do homem comum pelos progressos científicos e suas aplicações. Finalmente, mas não por último, renovou a capacidade de assombro de toda uma época, limpando as teias de aranha de uma mentalidade senil. Além disso, descreveu como realidades os grandes desejos e mitos da humanidade, até então tidos como algo de fabuloso obtido graças aos deuses e, portanto, à semelhança dos antigos. Literalmente, deu asas à própria imaginação e a nossa. Para o bem ou para o mal, anteviu grandezas e misérias das coisas ainda viriam.
À exceção do unânime reconhecimento à sua clarividência - muito maior que a de Nostradamus, e que inaugura o gênero da ficção científica em ''Cinco Semanas em um Balão'' -, alguns dos principais biógrafos de Verne raramente estão de acordo em outras questões sobre o autor. Assim, enquanto a ''Enciclopédia de Literatura Garzanti'' fala de ''conteúdos libertários e progressistas de suas obras'', resultado de encontros que o escritor manteve com círculos anarquistas e socialistas, o ''Dicionário Bompiani'' assegura que o novelista ''jamais participou, de maneira efetiva, das convulsões políticas que se sucederam durante sua longa vida, preferindo se refugiar em amplos e incertos simbolismos''. Mais contemporâneo, John Clute escreveu em sua insubstituível ''Enciclopédia de Ficção Científica'': ''Verne procurou ferozmente não incomodar o sistema vigente''.
Nenhuma dúvida, no entanto, de que o homem que viria a ser o mestre das antecipações - como as viagens à Lua, a navegação submarina e inclusive o metrô - chegou ao mundo na cidade francesa de Nantes, em 1828, batizado como Jules Gabriel Verne Allotte filho de família burguesa e acomodada. O pai era advogado, católico austero e rigoroso, descendente-conivente com o ''ancien régime" que ainda agonizava - daí não se estranhar a postura reacionária nos primeiros escritos de Verne, postura que o tempo iria temperar até abrir espaço a concepções radicalmente opostas.
A única experiência ''aventureira'' que se tem notícia foi uma tresloucada fuga de casa aos 11 anos. Destino: o mundo desconhecido, mares adentro. Descoberto o quase-marujo com o navio já em movimento, o fim do efêmero episódio é a envergonhada volta a casa. E uma promessa solene, para alívio de seus futuros milhões de leitores: nunca viajar de novo, a não ser singrando os oceanos revoltos da imaginação e explorando as florestas luxuriantes da fantasia. Promessa que manteve em quase 100 livros que, segundo informe divulgado pela UNESCO em 1972, foram traduzidos em 112 idiomas, o que coloca Verne em segundo lugar na lista dos maiores best-sellers mundiais, atrás apenas de Karl Marx, autor de obra bem menos numerosa, mas bem mais densa.
Destinado pelo pai à advocacia, em meados do século XIX o jovem Julio Verne frequenta a Paris da intelectualidade literária. Torna-se amigo de Victor Hugo e é apadrinhado pelos Dumas, pai e filho. Formado em Direito, não volta a Nantes. Seu interesse é pelas ciências. Enquanto insiste na literatura, fica sem a mesada paterna. Sobrevive de peças teatrais e operetas. Nisso não é lá grande talento, mas dá para alguns ganhos. Casa-se com Honorine de Vyane. E estabelece os primeiros laços de amizade e comerciais com P.J. Hetzel, daí em diante seu editor (e motor) permanente. Aos 35 anos, em 1863, escreve o já citado ''Cinco Semanas num Balão'', êxito fulminante e ponto de partida para um contrato de mais de quarenta anos, até quase sua morte.
Nos anos seguintes aparecem as obras que se tornariam as mais populares. Em décadas pontilhadas por novidades científicas, Verne refina a ''bola de cristal'' e aprimora o estilo - nunca de afasta totalmente do folhetim -, torna-se o novelista de importância universal. A situação econômica melhora e muito, enquanto passa por graves dificuldades pessoais. Trabalha febrilmente e é submetido a processo de estresse - outra antecipação, agora na própria carne... Ao mesmo tempo, o diabetes o deixa debilitado (no fim da vida estava cego de um olho e mal ouvia). É vítima de paralisia facial; um sobrinho lhe dá um tiro à queima-roupa na perna. Há referências a um complicado romance paralelo, mantido por Verne até a morte da moça. Mais adiante, notícias do mundo alteram a visão otimista, uma constante em sua fase inicial de aventuras.

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