Memória fotográfica
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de julho de 2014
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Foi de forma despretensiosa que o fotógrafo Yutaka Yasunaka, de 87 anos, que foi um dos proprietários do Foto Estrela, começou a fazer seus primeiros registros fotográficos de Londrina, sem saber que dessa forma estaria dando uma grande contribuição à memória fotográfica da cidade. Recentemente, ele doou parte do acervo do antigo Foto Estrela (que inclui fotos de Carlos Ricardo Stenders, seu fundador) ao Museu Histórico de Londrina como forma de também colaborar para as festividades em torno das comemorações pelos 80 anos da cidade. Fotografias, negativos, objetos, equipamentos e mobiliário fazem parte do raro acervo que atualmente está sendo catalogado - e em alguns casos restaurado - pela equipe do Museu. Entre as raridades, estão os negativos de vidro. Uma exposição especial aberta ao público deverá ser realizada até o final do ano.
"Esse tipo de doação não é algo comum pelo seu valor e importância histórica; recentemente também recebemos material da família de Paulo K. Baba, que foi um importante agrimensor da Companhia de Terras Norte do Paraná", avalia a diretora do Museu Histórico de Londrina, Regina Célia Alegro. Na área fotográfica, ela também cita toda a coleção do fotógrafo José Juliani, que também faz parte do Museu. "Nesse tipo de material há muitos registros da cidade e também do cotidiano familiar e tudo passa a ser informação histórica", salienta.
E é com voz mansa que o senhor Yutaka lembra bem-humorado da época em que "a poeira da terra vermelha estava por todo lugar". "Não tinha jeito. A toda hora tínhamos que limpar o balcão da loja", recorda-se, dando risada. Assim como das suas "aventuras" para conseguir o "melhor ângulo fotográfico", a exemplo das fotos aéreas tiradas de um pequeno monomotor de onde era possível visualizar terrenos imensos devastados pelo progresso que avançava: do alto, centenas de troncos de perobas ao chão com o Rio Tibagi ao fundo. Tudo preparado para fazer curvas de nível para o plantio de café. Aliás, ele faz questão de lembrar que os pés de café não eram como os de hoje: chegavam a ter 3 metros de altura, com dezenas de fotos que comprovam o que um dia viu in loco.
"Tinha que aproveitar o rolo de filme e evitar desperdício. Não era como hoje, que a máquina digital permite muitas tentativas", observa. "Naquele tempo não era fácil fotografar; hoje até uma criança faz foto digital", acrescenta o fotógrafo que hoje se rende à máquina digital para registrar os eventos familiares.
CARTÕES-POSTAIS
Foi dele também a ideia de fazer retratos de alguns pontos da cidade, como a antiga Concha Acústica, para compor um painel com várias fotos de Londrina. "Naquela época não havia cartões-postais da cidade e tirava fotos de Londrina para vender dessa forma aos clientes que queriam ter uma lembrança daqui", conta, sendo que o Museu possui um exemplar desse material. Ele também lembra com saudosismo do empresário João Milanez que sempre insistia para ser fotografado e queria tudo na hora.
Com 60 anos da sua vida dedicados à fotografia, o senhor Yutaka recorda que todo processo artesanal era trabalhoso e uma simples foto 3x4 tinha que ser retocada e demorava quase um dia para ficar pronta.
Com o pai, ele aprendeu as primeiras lições de fotografia. E foi no Japão que o seu pai aprendeu o ofício como auxiliar de um conhecido fotógrafo da cidade onde morava.
O trabalho de uma vida dedicada à fotografia também rendeu duas belas edições do livro "Revelações da História: o Acervo do Foto Estrela", com um apanhado geral das imagens registradas desde a fundação do estúdio fotográfico. O material está sendo comercializado a R$ 50 e pode ser solicitado diretamente com o senhor Yutaka pelos tel. (43) 3322-2427 ou 9997-0103.
DOAÇÕES
A diretora do Museu Histórico de Londrina observa que as doações contribuem para o enriquecimento do acervo do museu, mas que o material precisa passar por avaliação técnica prévia. As pessoas interessadas devem procurar a secretaria da instituição e um representante do museu faz a avaliação do objeto a ser doado e orienta sobre o destino mais adequado. "Não é tudo que é aceito para doação. Muitas vezes já existem aqui vários exemplares do objeto a ser doado ou ele não tem relação direta com a proposta de trabalho do Museu", afirma Regina. Mais informações pelo tel. (43) 3323-0082 ou 3324-4641.


