Memória fotográfica
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de junho de 1998
Silvana Leão 
Alguns dos principais fatos ligados à colonização do Norte do Paraná estarão retratados, a partir de hoje, na Exposição de Fotografias Históricas do Pioneiro Kurt Jakowatz, que fica até o próximo dia 5 no Espaço Cultural do Restaurante Muller Kaffee, em Londrina. São cerca de 50 fotos (algumas delas feitas pelo próprio pioneiro) que retratam as muitas dificuldades enfrentadas pelos primeiros aventureiros e que trazem como cenário, quase sempre, a rica mata nativa da região.
Acervo particularO pioneiro Kurt (à direita) com sua charrete de aluguel. Ao lado, o primeiro visitante recém-chegado da AlemanhaKurt Jakowatz nasceu na Alemanha e veio com a família para o Brasil em 1925. Quatro anos depois aceitava o convite da Companhia de Terras para conhecer uma região rica, porém totalmente agreste. Segundo ele, mesmo sabendo que não encontraria qualquer tipo de conforto, o grupo de viajantes se entusiasmou com o desafio. A vida na fazenda em que morávamos, no interior de São Paulo, já se tornava aborrecida, por isso estávamos prontos para aceitar essa boa vida (sic) de ir ao sertão, conta o pioneiro, prestes a completar 89 anos.
Kurt veio com a incumbência de demarcar os primeiros lotes. Só para fazer o trajeto entre Ourinhos (SP) e Cambará (Norte Pioneiro), o grupo levou um dia e uma noite, com direito a pernoite na Serra Morena, num pequeno rancho feito com lascas de coqueiro. À noite, no meio da selva, percebemos os primeiros índios. Até chegar às terras onde mais tarde seria fundada Londrina, seguiram-se muitas aventuras, como longos trechos em lombo de burro.
Milton DóriaO pioneiro Kurt Jakowatz: memórias de uma época de muito trabalho e aventurasOs detalhes daquela primeira viagem ainda estão frescos na memória do pioneiro. ...Prosseguimos por uma picada até o primeiro córrego, de nome Quati e atravessamos três quilômetros pelo lugar onde estava o terreno reservado para a futura cidade de Londrina. Ali eu pensei que poderia ser o lote número 1 (chamada depois de Gleba Heimtal). Mais adiante, achei uma mina dágua, lote número 6. Ficamos rodeados de macacos e quatis, no meio da floresta. Assim estavam reservados os primeiros lotes.
Para sobreviver na nova região, Kurt Jakowatz fez de tudo. Trabalhou como recepcionista e tradutor do primeiro hotel construído pela Cia. Inglesa, foi auxiliar de topógrafo, derrubou matas, abriu estradas, foi charreteiro, trabalhou com o pai em uma oficina de consertos em geral e fez corretagem de terras. Diz que perdeu a grande oportunidade de sua vida quando, em 1934, a Companhia ofereceu a ele e a Celso Garcia as duas jardineiras para transporte dos visitantes, com a condição de que o comprador as guiasse pessoalmente. Como ele não sabia dirigir, perdeu o negócio.
Além das fotografias registrando fatos como estes, estarão expostos no Muller Kaffee objetos da época, guardados durante anos por Kurt Jakowatz. Tanto as fotos como os objetos estarão à venda pelo pioneiro, que pretende levantar recursos para tratamento de saúde. Depois da exposição, o acervo de Jakowatz será doado para o Museu da Imigração, em São Paulo.


