A festa começou ainda em fevereiro, no carnaval de Veneza, este ano especialmente temático. Pontes, vielas, canais, todas as vias da cidade foram tomadas de assalto pela exuberância das figuras circenses evocativas do universo mágico de Federico Fellini, o poeta saltimbanco das imagens, que não morreu mas, como diria Guimarães Rosa, partiu encantado de vez há exatamente uma década. Depois, ao longo dos meses, vieram outras homenagens, prolongadas até este início de dezembro. Os festivais abriram seus espaços mais nobres e desfilaram mostras retrospectivas, exposições e novidades, ao som da música transbordante de Nino Rota oferecida em concertos ao ar livre - como esquecer o cair da tarde de sonho de cinema na Croisette, em Cannes, emoldurado pelos acordes nostálgicos de ''Amarcord''? Restaurada por especialistas da Medusa Film e Mediaset, toda a obra felliniana voltou a brilhar nas telas - ''apenas'' vinte longas, um média e três curtas metragens no decorrer de uma fascinante carreira de quatro décadas.
Se por um lado Fellini estaria hoje contrariado diante destas mesmas celebrações que ele dizia odiar, segundo revelou o ator e amigo Paolo Villaggio há três meses no Festival de Veneza, por outro, e paradoxalmente, sorriria satisfeito diante deste interminável desfile de homenagens, desta longa e infindável manifestação de apreço por sua genialidade. Sim, porque era explicitamente comprovada sua aversão pela finitude das coisas. ''Desde o princípio me recusei a utilizar a palavra 'fim', provavelmente obedecendo àquele velho sentimento de desilusão, desgosto e irritação que sentia quando, menino ainda, ia ao cinema. Esta palavra significava que a festa tinha terminado, que tinha chegado a hora de voltar para casa e fazer os deveres'', sentenciava ele em declaração recolhida por Vincenzo Mollica no livro ''Parole e Disegni''.
Além desta amargura que experimentava pelo término da festa, com certeza a idéia de colocar na tela o clássico crédito ''Fine'' supunha também que estaria exercitando uma espécie de violência contra os personagens da história.
A Fellini encantava imaginar que os seres aos quais tinha dado vida continuariam a se encontrar entre as muitas multidões que habitavam suas histórias, vivendo juntos novas aventuras naqueles territórios míticos, alegóricos, desproporcionais. Por isso também se recusava a rever seus filmes, e justificava: ''O autor tem que se distanciar. Se ele fala do filme, analisa e interpreta, termina por empobrece-lo, por aprisioná-lo numa série de conceitos que o asfixiam''.
O caráter visionário do poeta Fellini teve muito a ver com esta vigência inesgotável de sua obra, esta permanência que levou o escritor Milan Kundera a dizer que ''os filmes de Fellini são atuais para sempre. Ele partia da realidade para reinventá-la e se aventurava depois, entre seus fantasmas e seus delírios, naquele obscuro mar do inconsciente de onde emergiam formidáveis intuições. São suas as palavras, aqui escolhidas meio ao acaso entre as centenas de páginas que recolheram suas reflexões: ''Faço um filme como se estivesse fugindo, como se fosse uma doença que tento evitar. Impaciente e cheio de rancor, olho o filme como a desgraça da qual tenho que libertar-me, e me engano com o pensamento de que minha salvação virá no momento em que me separe dele. Depois me sinto doente de novo e de uma maneira diferente de quando fugi do filme, de quando o entreguei a outros. E então procuro adoecer de um filme novo e diferente do qual vou precisar libertar-me outra vez. (...) O sonho é também uma expressão de nossa doença. Também, como a doença, é a busca da saúde. Um filme, para mim, é algo muito próximo de um sonho amigo que não busquei, ambíguo, mas ansioso para revelar-se, vergonhoso quando se explica, fascinante enquanto conserva seu mistério''.
Dois momentos excepcionais, entre tantos neste calendário que multiplicou homenagens. O primeiro em maio, em Cannes, o documentário inédito ''L'Última Sequenza'', o melhor segmento da retrospectiva ''Fellini - 15 mil dias como diretor''.
Entre os milhares de fotos feitas pelo americano Gideon Bachman no set de ''8 e meio'', há 40 anos, o documentarista Mario Sesti descobriu planos nunca vistos, tomadas de cena num vagão de trem onde viajam alegoricamente todos os personagens do filme, evidências - reforçadas por depoimentos de atores remanescentes - de uma misteriosa sequência onírica que um indeciso Fellini preferiu não acrescentar, prevalecendo aquela que encerra o filme, o memorável e melancólico desfile circense. O documentarista Sesti, ao som da voz em off do próprio cineasta e com a preciosa colaboração do compositor Federico Badaloni, consegue imprimir um sopro de surrealismo não somente a tal ''última sequencia'' como também reconstrói num passe de mágica o mundo encantado do próprio ''8 e meio'', esta obra-prima inventada do nada, testamento até hoje insuperável sobre a crise no processo de criação artística.
O segundo impacto aconteceu diante de ''La Tiv— di Fellini'', filme de montagem de pouco mais de meia hora exibido em setembro no Festival de Veneza, documento inédito e extraordinário da arte felliniana, e que para surpresa de muitos apareceu na tela assinado pelo próprio. São retalhos e episódios excluídos da montagem final de ''Ginger e Fred'' (1985), um impressionante testemunho das premonições que Fellini fez sobre as mudanças de hábitos e comportamentos dos italianos engolfados pelo turbilhão mediocrizante da tevê privada - em suma, todo o repertório da monstruosidade da televisão revisitado pela farsa paródica e pela fantasia humorística do autor, inimigo público número um de Silvio Berlusconi. Precisaria mais para canonizá-lo?

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