Memória em ruínas
Luciana Cavalini
Agência Folha
A casa onde o escritor Euclides da Cunha morou durante três anos em São José do Rio Pardo (a 260 quilômetros de São Paulo) e os documentos e cartas que escreveu estão em estado de degeneração por falta de conservação. Tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) em 1946, o imóvel onde o escritor morou com a família entre 1898 e 1901 está sendo destruído por cupins e vazamentos.
No local, funciona atualmente a Casa de Cultura Euclides da Cunha, que realiza o mais antigo evento de homenagem ao escritor, a Semana Euclidiana. Os Sertões, o principal livro do autor, teria sido escrito na cidade. Engenheiro do governo do Estado, ele se mudou para São José quatro meses após o final da Guerra de Canudos. A Secretaria de Estado da Cultura, proprietária da casa e responsável pela conservação, admite que não é feita a manutenção adequada por falta de recursos.
A diretora do Departamento de Museus e Arquivos da Secretaria de Estado da Cultura, Marilda Suyama Tegg, defende a municipalização do museu. Atualmente, o Estado arca apenas com os custos de telefone, água e energia elétrica.
A Prefeitura de São José do Rio Pardo mantém três funcionários no local. O prefeito Richard Celso Amato (PRP) é contra a municipalização da Casa. Os objetos do escritor não estão catalogados e alguns continuam encaixotados por falta de funcionários para organizar. O diretor da Casa da Cultura, Lázaro Chaves, já enviou um projeto de restauração do imóvel ao Ministério da Cultura. O custo mínimo seria de R$ 180 mil.
A Casa da Cultura Euclides da Cunha tem dívidas de R$ 40 mil com fornecedores e professores que participaram da 87ª Semana Euclidiana, realizada em agosto passado. A verba havia sido prometida pelo Ministério da Cultura, que contribui com a realização do evento há pelo menos quatro anos, mas não foi repassada até agora.
O secretário do Patrimônio, Museus e Artes Plásticas do Ministério da Cultura, Otávio Elísio Alves de Brito, foi procurado pela reportagem durante dois dias, por meio de sua assessoria, mas não foi localizado. Segundo a assessoria de imprensa, o recurso deve ser liberado na próxima semana. Como o ministério não enviou o dinheiro, não pudemos ressarcir os débitos, afirma Lázaro Chaves, diretor da Casa de Cultura.
Para tentar receber a verba e cobrir gastos com fornecedores e o pagamento de professores, o ministério propôs a organização de outro evento relacionado ao escritor para possibilitar a criação de dotação orçamentária. A Casa da Cultura deve organizar um seminário neste mês para tentar receber o recurso.
A Semana Euclidiana é o mais tradicional evento de homenagem ao escritor. Entre os dias 9 e 15 de agosto, intelectuais e estudantes se reúnem para debater vida e obra de Euclides da Cunha. Cerca de 600 estudantes de todo o País assistem a aulas e participam de uma maratona intelectual sobre o autor.
A tradição começou em 15 de agosto de 1912, quando um grupo de moradores de São José do Rio Pardo realizou uma caminhada da prefeitura até o barraco de zinco à beira do Rio Pardo. O lugar é reconhecido pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como o local onde Os Sertões foi escrito. Eles protestavam contra a impunidade do militar Dilermando de Assis, o amante da mulher do escritor, Anna Ribeiro, que havia matado Euclides da Cunha três anos antes.
O ato de relembrar a morte do autor ao lado da cabana se mantém até hoje. Em 82, os restos mortais do escritor e de seu filho, Euclides da Cunha Filho, foram levados do Rio de Janeiro para São José e estão em um mausoléu ao lado da cabana.





