Antes da fundação oficial de Londrina, já havia um cineasta amador registrando imagens do futuro município. Era Hikoma Udihara (1882-1972), um japonês que com sua câmera 16mm captou tudo o que ocorria nas matas e clareiras para servir de material de propaganda para a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), da qual era contratado.
O objetivo era convencer imigrantes instalados em outras regiões do País para vir a Londrina. Uma parte do que filmou na época, principalmente em 1934, será exibida nesta quinta-feira no Museu Histórico na abertura da "Mostra Londrinense de Cinema e Memória", realizada pelo cineclube Ahoramágica em parceria com o Museu e com o Núcleo de Comunicação Popular e Comunitário da Via Cultural Alma Brasil.
A programação começa às 19h e contará com exibições também de outros dois registros pioneiros: "Renato Melito – Cinema de Escavação" e "Brasil – Moradores Alemães do Norte do Paraná", de Karl Otto Muller.
A Mostra segue até o dia 30, sempre com entrada gratuita, reunindo produções precursoras da cinematografia local – como as citadas – além de criações mais recentes.
Os dois primeiros ficcionistas locais, Orlando Vicentini e José Lorenzo Izquierdo, também serão destaques com sessões de seus curtas-metragens na sexta-feira. Já entre os títulos contemporâneos garimpados para a Mostra estão "Haruo Ohara", dirigido por Rodrigo Grota em 2010; "Gaijin II", rodado por Tizuka Yamasaki em 2005; "O que as brumas escondem"(2008) de Natália Turini; "Geada Negra"(2011), de Adriano Justino; "O que você busca"(2011), de Paula de Cássia/Cineclube Ahoramágica; além de curtas produzidos pela Cia. Teatro de Garagem trazendo depoimentos de nomes importantes das artes cênicas de Londrina como Nitis Jacon e Mário Bortolotto.
Também nesse segmento, será exibida toda a produção desenvolvida pelo projeto Roda Memória em parceria com a Vila Cultural Alma Brasil. "A proposta é resgatar, juntar e apresentar num único evento a memória do cinema londrinense que está dispersa em diferentes acervos. Outra finalidade é sensibilizar a população para a defesa e preservação do material mais antigo que corre o risco de se deteriorar com o tempo", diz Luis Henrique Mioto, coordenador geral da Mostra e autor do longa "Saga Cidade", incluído na programação.
Segundo ele, películas têm limites de durabilidade. Se não forem tomados cuidados apropriados para a conservação, tendem a se extinguir. Referindo-se à produção de Udihara e Melito, ele alerta que "não há outros registros imagéticos daquele período, daí a importância de sua recuperação como fonte de pesquisa para historiadores". Mioto trabalhou ao lado de Luciano Schmeiske Pascoal, professor de pós-graduação da Faculdade Pitágoras, durante o processo de edição e digitalização de parte do acervo que será exibido ao público.
A produção de Udihara está guardada no Museu Histórico de Londrina, enquanto que o material de Melito encontra-se no Museu de Cambé. De acordo com o pesquisador Caio Júlio Cesaro, o imigrante japonês teria sido o primeiro a registrar imagens em movimento na região ao documentar uma colheita de algodão em abril de 1934. Especula-se que um ano antes ele já registrara imagens da terra e da mata. Tal material, contudo, nunca foi encontrado. Trabalhando para Companhia de Terras Norte do Paraná, Udihara tinha a tarefa de atrair japoneses para cá.
Fechou muitos negócios no interior de São Paulo.
"Ele era o principal agenciador da empresa. Através de seus filmes, trouxe muitos imigrantes para colonizar a região. Veja que o cinema foi em boa parte responsável pela construção de Londrina", assinala Mioto. O organizador da Mostra explica que o outro desbravador das imagens, Renato Melito, realizava uma espécie de "colunismo social" ao documentar eventos e personalidades importantes do município.
Em 1940, fundou a empresa cinematográfica Rilton Filmes. Pagava seus filmes com o dinheiro que arrecadava do merchandising inserido nos trabalhos. A posse do Arcebispo D. Geraldo Fernandes e as primeiras Exposições Agropecuárias e Industriais foram alguns dos eventos que documentou ao longo da carreira.
Karl Otto Muller, o terceiro pioneiro que será lembrado na abertura da Mostra, é o autor do segundo registro audiovisual feito em Londrina. Seu documentário "Brasil: Moradores Alemães do Norte do Paraná" é uma película 16m com duração de 17 minutos que mostra uma viagem de trem de Ourinhos (SP) até Jataizinho (PR) percorrendo ainda a Colônia Heimtal, a sede da CTNP em Londrina, além da mata virgem e plantações de café na área de Rolândia.
Além das sessões, o público poderá vistar uma sala anexa onde será montada uma exposição com objetos dos cineastas pioneiros e fotografias dos antigos cinemas de rua de Londrina.

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