Quando criança, pouco mais que um metro de altura, eu era responsável por algumas tarefas cotidianas em casa. Minhas obrigações diárias eram lavar a louça suja do jantar, buscar leite e carregar as sacolas na feira. Minha mãe, conforme cada um dos cinco filhos iam crescendo, distribuía os afazeres domésticos para não ficar sobrecarregada. Parecia justo.
Eu odiava lavar a louça. Buscar o leite era indiferente. Gostava mesmo era de acompanhar minha mãe na feira, todo sábado de manhã. No início tinha que carregar as sacolas. Como a feira não ficava perto, a volta era um sofrimento. Isso até minha mãe comprar um carrinho de feira, uma sensação na época. Pilotar o carrinho, mesmo cheio, era uma aventura.
No final da feira, ficavam os vendedores de galinha. Minha mãe escolhia duas ou três e pendurava no carrinho, amarradas pelos pés, de ponta-cabeça. No trajeto de volta, sempre alguma tentava escapar. Parecia um carrinho de feira batendo asas.
Naquele tempo não existia os frangos que encontramos nos dias de hoje nos supermercados e açougues – mortos, limpos, cortados e embalados. Quem desejasse comer frango, tinha que comprá-lo vivo e matar com as próprias mãos.
Quando chegávamos em casa, meu pai destroncava o pescoço das galinhas e deixavas elas se debatendo no quintal. A cena durava alguns minutos, os espasmos cessavam e a poeira abaixava. Com água fervendo minha mãe despenava cada uma delas, limpava tudo e estava encaminhado o almoço de domingo.
No momento em que minha mãe abria as galinhas, eu e meus irmãos ficávamos olhando para ver se havia ovos dentro da ave. Quando havia, era uma festa: bolinhas amarelas de vários tamanhos, as gemas dos futuros ovos. No mesmo momento colocávamos as bolinha para cozinhar na água fervendo. Comíamos com sal. A distribuição dos ovinhos seguia um rígido critério hierárquico, uma espécie de acordo entre os cinco irmão. O maior ficava com a bolinha maior, o menor com a menor. Parecia justo.
Todos os adultos trazemos a infância guardada na memória. Esse relato que acabo de fazer pode parecer simples lembranças da infância, mas traz em seu interior elementos históricos. História não é apenas Descobrimento do Brasil, Inconfidência Mineira, Independência do Brasil, Proclamação da República e outras coisas.
Toda vez que ouvimos nossos pais, avós e pessoas mais velhas contarem coisa do passado, como era a vida deles há dezenas de anos atrás, ouvindo relatos históricos. Retratos orais de como era a vida em determinada época em determinada região. Essa memória nos ajuda a ter uma maior compreensão de como vivemos hoje. Pode-se dizer que cada pessoa, cada uma com suas características, é um livro de História.
O livro infanto-juvenil ‘‘Nas Ruas do Brás’’ de Drauzio Varella é um bom exemplo disso. A obra é o novo título da coleção ‘‘Memória e História’’ editada pela Companhia das Letrinhas. De maneira simples e clara, revela o valor da memória como História.
Com ilustrações de Maria Eugênia, o livro faz as memórias de infância de Varella durante o período que morou, durante a década de 40, no bairro operário do Brás, na cidade de São Paulo. Fala de um época em que podia-se pescar e nadar no rio Tietê, de uma época em que o leite era entregue em casa em garrafas de vidro e tampa de alumínio, de uma época em que o céu de junho ficava coalhado de balões, de um época em que muitas crianças morriam de doenças desconhecidas. ‘‘Nas Ruas do Brás’’ nos faz pensar que a memória é a História particular, emotiva.
Neto de imigrantes espanhóis e portugueses, Dauzio Varella é um médico paulista que ficou conhecido nos últimos anos pela autoria de ‘‘Estação Carandiru’’ – livro escrito para adultos onde relata sua experiência como médico voluntário do maior presídio do país, o Carandiru, em São Paulo. Relatando o cotidiano e a vida dos homens encarcerados, realizou um testemunho forte e humanitário.
Quando crianças, podemos imaginar que seremos futuros livros de História. Quando adultos, podemos imaginar que somos livros de História que podem ser lido pelas crianças. Falando nisso, você já leu seus pais ou avós essa semana?
•‘‘Nas Ruas do Brás’’ de Drauzio Varella, ilustrações de Maria Eugênia, Editora Companhia das Letrinhas, 80 páginas, R$ 19,50.

mockup