A maior banda de rock brasileiro de todos os tempos não existe mais e você sabe de quem é a culpa? A culpa é das guitarras. Os Mutantes terminaram pela primeira vez em 1972, logo que Rita Lee deixou o grupo. Continuaria um ano depois com outra formação, mas jamais seria o mesmo. Arnaldo Baptista, tecladista e baixista, era uma espécie de líder, o grande compositor. Sérgio Dias, seu irmão mais novo, também funcionava como um importante pensador do conjunto, além de ser o guitarrista.
O fato é que o grupo, segundo Arnaldo, poderia até voltar. Isso se não fosse uma antiga desavença fraterna por causa das guitarras. Arnaldo, que lançou recentemente seu disco solo intitulado ''Let it Bed'', com produção de John, do Pato Fu, explica por que os Mutantes nunca mais serão vistos juntos. ''Vai saber a razão que levou o Serginho a preferir a Fender. Prefiro seguir o meu som.''
A história em miúdos é a seguinte: Sérgio Dias é louco por guitarras da marca Fender, a mesma de Eric Clapton e Jimi Hendrix. Arnaldo Baptista é fascinado justamente pela sua rival número 1: Gibson, a mesma de BB King e Jimmy Page, do Led Zeppelin. E há um agravante por parte de Arnaldo: ele não toca numa Fender nem se for de ouro. O mutante explica, enfim, porque tanto desprezo pela guitarra do irmão: ''Existe um aparelho que se chama spectrômetro, que mede a frequência dos sons de instrumentos musicais. Se eu ligo uma Gibson nele, saem o grave e o agudo iguais ao médio, com a mesma potência. Se eu coloco uma Fender, o médio sai muito mais forte que o grave ou o agudo. Então eu prefiro a Gibson, que é mais total.'' Este é o motivo, segundo Arnaldo, que levou o grupo a não se reunir mais.
Arnaldo Baptista não arreda o pé de suas impressões sonoras e fala com certo radicalismo. ''Os Mutantes foram muito próximos ao Yes, em matéria de instrumentos e de som. Mas eu creio, e talvez os (outros) Mutantes não entendam, que Yes não é igual a Cream, a Jimi Hendrix. Yes é mais lenha, mais power, mais explosão. O Yes é bem mais clássico.''
O contato com o irmão Sérgio, que também toca sua carreira solo, se perdeu no tempo. ''Minha relação com o Sérgio é inexistente. Ficou muito difícil.'' O motivo? ''Não sei o que o levou a escolher a Gibson. Mas é isso. Deixa passar, let it be (deixa estar).''
Rita Lee é uma paixão do passado sobre a qual Arnaldo prefere não falar. ''Prefiro não entrar nessa.'' Mas os Mutantes não são um problema. Arnaldo lembra com carinho de seus anos de tropicalismo à frente da maior banda de rock que o País viu atuar. ''Antes do grupo se formar, eu trabalhava em uma companhia telefônica. Com os Mutantes, passei a ganhar um dinheiro a mais. E foi o tempo em que conseguimos ir mais longe.''

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