As palavras e imagens mantêm uma relação passional na dramaturgia de Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça. Não é que a atração entre elas não seja forte o suficiente para tornar a união estável, mas é preciso que, às vezes, uma briga faça nascer a poesia apaixonante do Armazém Companhia de Teatro.
Ao completar 20 anos, uma das companhias mais importantes do cenário brasileiro, que deu os primeiros passos em Londrina, o Armazém abre as portas dessa intimidade para uma reflexão sobre os processos de criação numa trajetória que tem sob o mesmo teto um elenco de 15 atores, que vivem exclusivamente da arte teatral.
Através do livro ''Espirais - Armazém Companhia de Teatro (1987-2007), que será lançado amanhã, às 20 horas, na Livraria da Travessa, do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, o grupo radicado desde 1998, na capital carioca, revela porquê espetáculos como ''Toda Nudez Será Castigada'' mereceram o Prêmio Shell de Melhor Direção para Paulo de Moraes (2005) e Melhor Iluminação de Maneco Quinderé, além de outras indicações.
A qualidade do repertório da companhia foi reconhecida com uma premiação especial pelo Shell na edição 2000. Em 2001, o Armazém ganhou novamente o maior prêmio do teatro brasileiro na Categoria Melhor Cenografia para Moraes e Gelson Amaral por ''Da Arte de Subir em Telhados (2001), montagem que também recebeu indicações para Melhor Autor, Moraes e Maurício Arruda Mendonça, e Melhor Direção.
O livro ''Espirais'' não poderia ser diferente dentro do repertório de uma companhia que produziu espetáculos de uma beleza como ''A Ratoeira é o Gato'', ''Alice Através do Espelho'', ''Pessoas Invisíveis'', ''A Caminho de Casa'', entre outros.
Os ensaios dos estudiosos e pesquisadores Tânia Brandão, Sérgio Salvia Coelho, Valmir Santos, Marcos Losnak e Maurício Arruda Mendonça, que analisaram cinco peças do grupo, discutem relação com o farto material fotográfico do grupo em que a palavra e a imagem vivem toda a passionalidade de uma paixão.
Para Moraes, a publicação é um diálogo sobre os processos e resultados do grupo. Além de ajudar a ativar a memória, conserva a trajetória. A proposta tem como escopo o ''Projeto Memória'', idealizado pela companhia como contribuição à preservação da história teatral brasileira.
Com o projeto, o Armazém se tornou a primeira companhia a lançar no País um DVD de teatro. Inicialmente com ''Da Arte de Subir em Telhados'', seguido de ''Pessoas Invisíveis e ''Alice Através do Espelho''.
O Armazém é um mundo que está na cabeça de Moraes transformado pela dramaturgia a quatro mãos com Arruda. ''Mudou muita coisa na trajetória da companhia, que começou um pouco pretensiosa e que, depois de alguns anos ficou bastante pretensiosa. Até a 'Ratoeira é o Gato' tínhamos um grupo mais homogêneo. Hoje é multifacetado'', avalia Moraes, dando ênfase no trabalho do ator, pesquisa do espaço cênico e teatralidade pura como os suportes que carregam o sucesso do Armazém.
Sobre esse palco, a palavra e as imagens formam a dramaturgia do Armazém, que para alguns tem a fluedez cinematográfica ou de Histórias em Quadrinhos (HQs), tratando das paixões humanas - sempre com a poesia no canto da boca, mesmo diante da frase mais dolorosa que o texto de Moares e Arruda consegue pronunciar.
''A imagem na nossa dramaturgia é muito importante e tenta dar equilíbrio. É muito forte e passional. Existe poesia sem pronunciarmos uma palavra, o que instiga a discussão. Porém, temos o contrário em que as imagens não conseguem obter uma tradução poética tocante. A palavra aí tem um peso importante, sendo usada de forma complementar. Acontece também de uma brigar com a outra para produzir alguma questão'', afirma o diretor.
Moraes está entre os grandes diretores teatrais que sabem tirar proveito desse casamento e dos desentendimentos suscetíveis às paixões humanas, que a arte teatral expurga.''A chegada do Maurício Arruda Mendonça à companhia foi num momento em que senti que a palavra precisava de uma lapidação maior'', ressalta Moraes ao afirmar que a sua poesia é mais cênica.
Londrina é sempre uma das influências do diretor que diz que a sua preocupação é promover um debate de idéias com o público. ''Não tenho a preocupação de ser totalmente compreendido, mas que seja relevante ao público'', afirma o diretor que tem os pés plantados no palco. Apesar da associação constante de sua dramaturgia ao cinema, ele afirma que o Armazém é mais que um projeto de vida.
Com um repertório de espetáculos que a crítica contabilizou em seus balanços, Moraes aposta em avaliações que consiguem dialogar com os diretores e que levem em consideração o seu histórico, o que quis fazer através da montagem e linguagem, dando um passo além de simples considerações.
O Armazém apresentará a montagem ''Mãe Coragem e seus Filhos'' nos dias 21 e 22 próximos, na capital paranaense, durante o Festival de Curitiba. Em abril será a vez de Brasília conferir a peça.
No final do ano, a companhia estreiará novo espetáculo, que ainda não tem nome. Uma coisa é esperada: que a relação palavra e imagens na dramaturgia inconfundível do Armazém nos envolva num triângulo amoroso.

SERVIÇO:
- Livro ''Espirais - Armazém Companhia de Teatro (1987-2007)''
Organização
Páginas - 308
Quanto- R$ 65
Mais informações- www.armazemciadeteatro.com.br

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