MEMÓRIA Baú de preciosidades
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de maio de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Em meados da década de 80, o videomaker Osval Siqueira Filho, mais conhecido como Tiomkim, realizou um trabalho voluntário no estúdio do jornalista Aramis Millarch, em Curitiba. Sua missão era catalogar o imenso arquivo de revistas e textos avulsos de cinema, fotografia, literatura, quadrinhos e os mais diversos assuntos culturais reunidos desde a década de 60 pelo jornalista. O resultado foi a abertura de mais de 2 mil pastas temáticas, que ficaram esquecidas desde a morte de Millarch, em 1992. Agora, coincidentemente, essas pastas voltam às ávidas mãos de Tiomkim, hoje responsável pelo setor de audiovisual do Museu da Imagem e do Som (MIS).
O importante arquivo foi doado pelo filho e herdeiro de Aramis Millarch, Francisco Millarch, para integrar o acervo do MIS. Como o museu está fechado para visitação desde o início do ano, o público ainda pode demorar para conhecer essa preciosidade, mas Tiomkim garante que o material estará bem cuidado até que o MIS abra as suas portas. ''Eu tenho uma familiaridade muito grande com esses arquivos, o que vai facilitar a organização do material'', diz.
Textos em folhas avulsas, assinados por Dalton Trevisan, reportagens de Aramis Millarch sobre os mais variados temas, fotografias e pôsteres do cinema brasileiro que o jornalista recebia quando exercia a profissão são alguns dos assuntos que integram as pastas. E mesmo uma consulta superficial no acervo é capaz de revelar curiosidades. Como o motivo que levou Millarch a querer processar a Fundação Cultural de Curitiba, em 1991, e as polêmicas que permearam demissões de funcionários da instituição, quando esta ainda era dirigida por Lúcia Camargo. O assunto está disposto na pasta intitulada ''Crises na Fundação''.
Na pasta, estão reunidos matérias de diversos jornais paranaenses, incluindo a Folha de Londrina, sobre um assalto que aconteceu nas proximidades do Teatro Paiol, motivo que levou o jornalista a ameaçar um processo contra a fundação. Consta que um assistente de Millarch teria sido impedido de entrar no teatro para gravar o show de Gonzaguinha, mesmo depois de ser autorizado pelo músico. Minutos depois foi assaltado e teve todo o seu equipamento roubado quase em frente ao teatro. Este seria um dos últimos shows que Gonzaguinha faria, antes da sua trágica morte em um acidente de carro.
Outro documento curioso reunido por Millarch é uma publicação de Yara Sarmento, datada de 1985, em resposta às declarações e justificativas apresentadas pelo então secretário de Estado da Cultura e Esporte, Fernando Eugênio Ghignone, à exoneração de funcionários, incluindo a própria Yara e o diretor de teatro Oraci Gemba.
As fotografias de cinema, a maior parte recebida da Victória Cinematográfica, também incrementam o acervo. Em uma série delas, aparece o jogador Pelé no filme ''A Marcha'', de Osvaldo Sampaio, com Paulo Goulart e Nicete Bruno no elenco. Fotos e ilustrações de atrizes como Renata Sorrah, irreconhecivelmente jovem, e artistas já esquecidos na memória até dos cinéfilos de plantão complementam o material. ''É um acervo muito raro que não pode se perder'', salienta Tiomkim.
Millarch nasceu em Curitiba e começou a trabalhar com jornalismo ainda adolescente, quando já escrevia e publicava pequenos artigos. Foi um dos fundadores da Fundação Cultural de Curitiba e assumiu o cargo de diretor executivo da instituição, no início da década de 70. Também ajudou a fundar a Associação de Pesquisa da Música Popular Brasileira, com sede no Rio de Janeiro.
Durante a sua vida colecionou milhares de produtos culturais, desde discos de música clássica, trilhas sonoras de filmes nacionais e estrangeiros, programas de cinena e teatro e o material reunido nas pastas que hoje habitam as salas do MIS. Millarch morreu em julho de 1992, aos 49 anos. A maior parte do seu acervo continua no seu estúdio, na Rua 24 de Maio, com destino ainda não especificado pela família.
Quanto ao material que foi doado ao MIS, a meta do museu é organizar o acervo em pastas suspensas e depois informatizá-lo. Mas assim como o museu ainda não tem data para abrir as portas ao público, a organização desse material também não tem data para ser concluída. Como a Folha já noticiou com exclusividade, o museu localizado num histórico prédio na Rua Barão do Rio Branco passa por uma série de dificuldades, principalmente em relação à sua estrutura física.
A atual diretora do espaço, Maria Amélia Junginger, no entanto, está otimista e avisa que a situação pode mudar. ''O governador Roberto requião assinou em março a autorização para a reforma do espaço'', revela, sem citar a cifra que vai envolver as obras. ''Agora estamos em busca de um espaço para nos mudarmos para que a reforma comece'', conclui.


