Eles se separaram há trinta anos, num alvorecer de Natal, na mansão oitocentista de Vevey, hoje transformada em museu para celebrar tanto um quanto outro. Um era Sir Charles Spencer Chaplin, venerável ancião de 88 anos, que tinha buscado refúgio naquele paraíso sobre a margem suíça do Lago Leman, depois de ter sido o cômico genial, o mímico insuperável, o artífice decisivo da história do cinema, aquele que desfrutou os privilégios da fama e padeceu seu indesejável reverso de escândalos e perseguições, aquele que foi objeto das análises mais sérias e das exegeses mais transbordantes.
O outro, seu filho mais dileto, sem idade nem residência fixa, o vagabundo de bigodinho e bengala, de chapéu coco e sapatões, chama-se - e sempre se chamará - Carlitos, ou Charlie, ou Charlot, ou Chaplín (assim mesmo, com acento). Foi este quem fez rir e emocionar gerações inteiras de pequenos e grandes, e segue fazendo o mesmo toda vez que sua figura inconfundível renasce no retângulo imaculado de uma sala em penumbra ou na pequena e doméstica telinha de uma tevê, nem sempre com a memória afetiva a serviço da genialidade do insuperável palhaço.
O primeiro, o pai da criatura, é aquele para quem se voltam evocações de toda a mídia mundial porque são passados trinta anos do dia em que serenamente se despediu do mundo. O outro, a criatura, é imortal. Anda por aí, em sua interminável marcha saltitante por caminhos empoeirados ou pelas ruas vigiadas pela polícia, quase sempre hostilizado pela fatalidade e invariavelmente ladino na arte de driblá-la. Sempre disposto à pirueta ou aos devaneios. Pleno de fé, apesar das desditas, da fome, da solidão. Nobre à toda prova. Generoso, travesso, solidário, romântico. Eterno Arlequim em busca de sua Colombina.
A Chaplin, a quem George Bernard Shaw definiu como ''o único gênio revelado pelo cinema'', estão sendo multiplicadas as homenagens. Discursos, estátuas, manifestações festivas diversas. Muita poesia dedicada a ele nas escolas e academias, embora neste caso qualquer verso - como já disse uma vez Carlos Drummond de Andrade - ''seja um ramo de flores absurdas enviado por via postal ao inventor dos jardins''.
Ao outro, o tal Carlitos, já se disse que não faz falta evocá-lo. Segue por aí, muito vivo, e basta que um facho de luz reinvente o milagre do cinema para que ele volte a lutar contra a malvada porta giratória que sempre o devolve à rua, contra a mesa insidiosa que faz sumir o copo ou contra o relógio de pêndulo, as cortinas, o abajur e a escada que tramaram contra ele em sua volta à casa, depois de uma noitada em regra. Ou ainda enfrentar a fome devastadora que o faz devorar, na noite de Ano Novo, suculentos cadarços da botina como se fossem espaguetes al dente.
Não se pode dizer, felizmente, que Chaplin faz falta. Ele continua entre nós, imagens perpetuadas pela tecnologia aliada ao espírito humano. Tudo o que fez aí está, não como mero espólio estatístico sobrevivente, mas como manifestação viva da genialidade criadora, da crença no homem e em sua força transformadora, apesar de todas as adversidades e obstáculos impostos por uma sociedade impiedosa.
O grande Jean Renoir, escrevendo em 1947 sobre Chaplin e ''Monsieur Verdoux'', abre seu texto com uma citação de Pascal: ''Há apenas uma coisa que interessa ao homem: o próprio homem''. E Chaplin foi isto, um homem comum, também genial e com frequência muito sentimental, sempre, profundamente interessado no bem-estar de seu semelhante.

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