O poeta Federico Garcia Lorca (1898-1936) tornou-se mártir involuntário da resistência contra o fascismo. Hoje faz 70 anos que ele foi assassinado por autoridades direitistas durante a Guerra Civil Espanhola. O episódio nunca foi definitivamente esclarecido. Sua morte gerou incontáveis versões, como a insinuação de que ele fora vítima de uma rixa entre homossexuais.
No mês passado, um documentário chegou às telas de Madri sustentando a influência de desavenças familiares no fuzilamento do poeta. Segundo o filme, dirigido por Emilio Ruiz Barrachina, Lorca teria sido capturado e eliminado com a colaboração de primos por parte da família Roldán. Entre as origens dos desentendimentos estariam as distribuições de terras compradas em sociedade, a homofobia e as diferentes tendências e ambições políticas.
Se os Lorca eram republicanos, os Roldán cerravam fileiras no movimento conservador Ação Popular. As controvérsias prosseguem, diluindo a figura do mito cuja morte era atribuída unicamente às suas posições políticas. Mas Lorca nunca foi militante partidário. Era republicano e adversário da Espanha tradicionalista e católica, mas jamais se converteu ao ativismo. Tinha temperamento delicado. ''Eu nunca serei político'' confessou numa carta ao amigo Dámaso Alonso. ''Eu sou revolucionário porque não há verdadeiros poetas que não sejam revolucionários''. No entanto, o biógrafo Ian Gibson encontrou vestígios de participação política na trajetória do poeta, como seu apoio à campanha eleitoral da Frente Popular (que por curto período governou a Espanha, em 1936), a crítica aberta à repressão política entre 1933 e 1938; e até a assinatura num manifesto pedindo a libertação do líder comunista brasileiro Luis Carlos Prestes pela ditadura de Getúlio Vargas.
Foi através da poesia, porém, que Lorca elevou-se ao panteão dos grandes nomes da arte espanhola de sua época como Luis BuÀuel e Salvador Dali. Apesar de insistir que nunca pertenceu a escolas literárias, fazia uso de recursos surrealistas em alguns de seus textos. Nos versos, estabelecia imagens, cenários onde se passam dramas. Os poemas são quase sempre curtos, secos, densos, repletos de referências visuais. Luas, céus, ciganos, fogueiras, marinheiros, punhais, rios, campos e noites são palavras e imagens recorrentes em sua poética.
O poeta morreu com apenas 38 anos. Em sua curta existência, deixou importantes obras-primas da literatura, muitas das quais publicadas postumamente.

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