MEMÓRIA
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de maio de 2003
Mauro Dias<br> Agência Estado 
São Paulo - O segundo Festival da Música Popular Brasileira, organizado pela TV Record, em 1965, terminou empatado: primeiro lugar compartilhado pela toada caipira ''Disparada'', de Théo de Barros e Geraldo Vandré, interpretada por Jair Rodrigues, e pela marchinha ''A Banda'', de Chico Buarque, defendida pelo autor, a duas vozes com Nara Leão.
Isso é fato muito bem-sabido. Não-sabido é que o júri havia premiado ''A Banda'': sete votos contra cinco para ''Disparada''. O vencedor foi informado da vitória nos bastidores. Achava que ''Disparada'' era melhor do que sua composição. Foi até Paulinho Machado de Carvalho, diretor da Record, e disse a ele: ''Olhe aqui, não deixa eu ganhar de 'Disparada'. Eu não posso ganhar esse prêmio sozinho.'' Paulinho Carvalho lembrou-lhe que o júri era soberano, mas Chico foi firme: ''Se 'A Banda' for premiada, eu devolvo o prêmio em público.''
O impasse foi resolvido com nova reunião do júri e a decisão pelo empate. As fichas com as notas dos jurados foram guardadas num envelope, entregue por Paulinho Carvalho ao seu assessor, e também técnico de som da emissora, Zuza Homem de Mello, com a instrução de que fosse guardado num cofre e escondido sempre.
Zuza Homem de Mello conta esse e outros episódios de bastidores em ''A Era dos Festivais - Uma Parábola'', lançamento da Editora 34 (528 págs., R$ 54,00). Revela, por exemplo, que Jânio Quadros, em 1965, pediu a Augusto Marzagão, que havia sido seu marqueteiro (o termo ainda não existia) que cuidasse da campanha do candidato Negrão de Lima ao governo do então Estado da Guanabara. Eleito, Negrão quis dar um presente a Marzagão, que pediu patrocínio para montar um festival internacional de música. Foi como nasceu o FIC, Festival Internacional da Canção.
Esses são fatos curiosos, mas não os mais importantes do novo livro de Zuza Homem de Mello, que nos últimos seis anos publicou os dois volumes de ''A Canção no Tempo'' (com Jairo Severiano, uma análise da música brasileira ao longo do século 20 que examina o que de mais importante houve, ano a ano) e um precioso perfil de João Gilberto.
O que importa de fato em ''A Era dos Festivais'' é a tal parábola complementar do título: Zuza procura estabelecer ligação entre a estética da música popular do período que examina - de 1960 a 1972 - com os acontecimentos políticos da época: a canção popular como ato de resistência ao regime militar e o fim da era dos festivais com o recrudescimento da ditadura, a falência de grandes ídolos por motivos extramusicais (Wilson Simonal, Geraldo Vandré e Erlon Chaves são exemplos eloquentes), a tentativa do regime de usar os festivais para fins propagandísticos de sua política.
Fora as muitas histórias inéditas de bastidores (não há fofocas, gratuidades, intromissão em intimidades: as revelações são importantes para o entendimento dos eventos em que os fatos de deram), o livro de Zuza Homem de Mello não traz grandes novidades teóricas. É, no entanto, a primeira obra não-acadêmica que procura, sistemática e detalhadamente, analisar as condições que fizeram surgir aquela brilhante geração de autores e intérpretes musicais, nos anos 60 e 70, e permitiram que surgisse o veículo para que as obras fossem veiculadas - os festivais da canção.
Para tanto, o autor vale-se de sua extraordinária memória e da condição de testemunha ocular; a isso, alia um exaustivo trabalho de pesquisa em jornais e revistas da época e de dezenas de entrevistas com o personagens da história. Foram cinco anos de trabalho: o primeiro, dedicado ao planejamento da obra; os outros quatro, à pesquisa de campo.
''A narrativa de Zuza tem, a um só tempo, a desenvoltura de quem frequentava os bastidores da cena e o distanciamento do pesquisador'', resume o crítico Tárik de Souza, diretor da coleção ''Todos os Cantos'', da qual faz parte ''A Era dos Festivais''. Foi Tárik quem sugeriu a Zuza um livro sobre os concursos de música. Mas foi de Zuza a proposta de contextualização.
Para tanto, esmiúça a história da noite, da boemia, do rádio de São Paulo no período imediatamente anterior ao tempo dos festivais. Mostra quem eram seus profissionais, que formação tinham, que tipo de música divulgavam, mostra a preocupação deles em apresentar ao ouvinte novidades; estima a repercussão disso entre os músicos e, em bola de neve, ao público universitário, de onde sairiam os compositores que os festivais consagrariam.
Dono de sólida formação musical, contrabaixista formado nos Estados Unidos e aluno de Musicologia da Juilliard School of Music, Zuza pode, ainda, descer a análises cuidadosas dos aspectos técnicos das canções mostradas nos concursos. E o faz com linguagem saborosíssima, simples, inteligível ao mais leigo dos leitos, sem com isso perder profundidade.
O livro é enriquecido por dois apêndices. Um deles traz a relação dos grandes festivais dos anos 60 e 70, com as músicas de cada eliminatória e a classificação final, além de relacionar outros festivais, vindos depois de 1972 (quando, segundo Zuza, a era acabou), embora de forma menos detalhada. O outro apêndice vem com a discografia completa dos festivais de que o livro trata. A gravadora Universal deve lançar, no ano que vem, um CD duplo com 28 canções escolhidas por Zuza as vencedoras dos festivais e as que não venceram, mas que ele considera importantes para a história da evolução da música brasileira.
Zuza Homem de Mello considera que a era dos festivais terminou em 1972, ano do sétimo FIC. O governo militar ordenou a destituição do júri nacional e o jurado Roberto Freire quis ler, no palco, um manifesto contra a arbitrariedade. Foi retirado do palco pela polícia, levado para uma sala próxima e espancado.
Como não poderia deixar de ser, ''A Era dos Festivais'' termina em tom de desencanto. ''Rompeu-se uma cadeia criativa'', disse o autor. Cortou-se um processo jamais retomado. O que se ouve hoje no rádio e na TV é só consequência.


