MEMÓRIA - Um guerreiro do noticiário
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004
Walmor Macarini<br> Reportagem Local 
Conheci mais de perto o jornalista Estelio Feldman no início de 1964, logo depois que eclodiu a ditadura militar e quando, por coincidência, eu assumia a direção de Redação da Folha de Londrina. Minha posse no cargo se deveu à saída do antigo diretor, Nilson Rímoli, um mestre repleto de seriedade profissional e que deu a diretriz editorial que viria a ser seguida até os dias de hoje pelo jornal.
Mas é de Estélio que falo, porque era ele a quem eu consultava nos nomentos de dúvida, e ele tinha um sexto sentido que alertava sobre a conveniência de se escrever isto ou aquilo. Ambos jovens, e com alguns arroubos, tínhamos nas mãos a Folha, porque João Milanez, o dono e diretor-presidente, viajava muito para o Rio e São Paulo, em busca de anúncios junto às grandes agências de propaganda, e nem sempre contávamos com a presença dele.
Lembro-me que a Folha era um jornal de feio aspecto gráfico, muitas falhas de impressão e fotografias quase inidentificáveis. A primeira página, até então, só ostentava notícias internacionais, porque assim faziam o jornal O Estado de S.Paulo e a então Folha da Manhã, hoje Folha de S. Paulo, e isso era ''in''. A primeira coisa que fizemos foi mudar isso.
A página de capa, então, passou a dar importância às notícias locais, regionais e por extensão paranaenses. O leitor aprovou e passou a aceitar mais o jornal. As pessoas vinham à Redação para dizer isso, porque a população era pequena e os leitores e assinantes, naturalmente, não eram muitos. Porém, todos os que liam a Folha eram pessoas importantes e com poder de decisão.
Eram tempos de ditadura, e se havia um entusiasmo profissional de parte dos dois meninos (eu e Estelio) e do restante dos jornalistas que a Folha tinha e que se podia contar pelos dedos das mãos , havia a proibição dos censores, que passaram a marcar presença na Redação. Trabalhávamos sob o regime do medo. Ouvia-se histórias horripilantes sobre o que faziam com os presos políticos, e os jornalistas eram muito visados.
Estélio, filho de judeus, sofreu por essa condição, e não por conta do regime e sim pelos pais, que não permitiam o namoro dele com uma não-judia.
Foram dias amargos para ele, porque o pai afastou-o de casa ante a resistência de Estélio, apaixonado que estava pela namorada com quem mais tarde se casaria e teria filhos. Ele ficou na rua, e passou a morar em nosso quarto de pensão: eu, Oswaldo Militão e meu irmão Walter Macarini.
Era na Avenida Duque de Caxias, em cujo andar térreo do prédio de dois andares havia uma loja com o nome de Casa Popular. Quando alguém pedia nosso endereço, Militão dizia que morávamos na Casa Popular. Eram tempos em que se passava fome, porque o jornal não tinha dinheiro e os salários vinham pingados. Repartíamos o pão, os sapatos, as calças, as camisas e as cuecas.
Quando me perguntavam, no correr dos anos, com quem eu nunca brigaria de forma alguma, eu respondia que com João Milanez, Oswaldo Militão e Estélio Feldman. E, de fato, com eles eu nunca briguei. Até porque não foi preciso. Ou, se motivos houve, nenhum de nós percebeu.


