MEMÓRIA - Rio de Janeiro nas mãos de Costallat
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O Rio de Janeiro é uma mulher, com olhos convidativos de cidade maravilhosa. Sensual e amante da malandragem romântica, que encontrou inspiração nas curvas do Morro da Urca e do Pão de Açúcar para cantar a sua beleza, a capital carioca também se deixou erotizar nas mãos de cronistas, como Benjamim Costallat (1897-1961.
Jornalista de sucesso nas décadas de 20 e 30, ele volta a beijar com o seu estilo a arte do jornalismo, depois de anos de esquecimento, na pesquisa que a jornalista Célia Polesel apresentará no 30º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.
Promovido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), o evento será realizado de 29 de agosto a 2 de setembro em Santos (SP).
Jornalista da FOLHA, Célia participará dos Núcleos de Pesquisa do Intercom (NPs), com o tema ''Benjamim Costallat: jornalismo e literatura no submundo'', tentando aproximar os dois gêneros em que o autor andou.
Com um texto inconfundível, Costallat se tornou um jornalista-narrador, transitando sem pudor entre os tipos que encontrou nas ruas, prostíbulos, favelas e sanatórios cariocas, como um dos personagens de suas histórias e da própria cidade.
Um dos autores mais lidos do Brasil em sua época, o jornalista foi considerado pornográfico pelo romance''Mademoiselle Cinema''. A publicação acabou recolhida, após ter vendido 60 mil exemplares.
As mãos atentas do autor maldito e escandaloso, mas que tinha um faro de editor, aconchegava na editora Benjamim Costallat & José Miccolis, obras de autores marginais.
Num exercício de voyeurismo - um pouco de poesia adicionada ao rigor científico - Célia observou todos os detalhes da nudez do texto de Costallat, estilo que costumava tirar toda a roupa para mostrar uma silhueta irônica. Um autor que gostava de satisfazer os desejos do leitor, afirmando que a crônica deve ser enxuta.
''Como uma mulher magra, mas graciosa e ondulante'', afirmava Costallat, que recebeu a peso de ouro para publicar a série ''Mistérios do Rio'', no Jornal do Brasil (JB), obra em que a jornalista se debruçou na pesquisa.
''Nesse trabalho, estou tentando mostrar a conexão entre o jornalismo e a literatura. Alguns autores não consideram o texto dele jornalístico, mas todos os elementos estão lá: o fato, a história. Em algumas matérias, Costallat fala em primeira pessoa, o que não acontece hoje em dia. Recursos que não são mais utilizados e que, por isso, empobrecem o jornalismo'', ressalta Célia.
A obra analisada, inspirada em publicações da Europa e dos Estados Unidos, como ''Os Mistérios de Paris'', garantiu a Costallat um estilo de reportagem que mereceu chamada de capa no JB, aumentando as vendas do jornal.
''Costallat pertencia a uma literatura com naturalismo em que os escritores acreditavam que para escrever um romance tinham que se aproximar dos fatos. Ele sempre colocava a sua opinião no final das reportagens. Alguns críticos do texto do jornalista consideram parte dos seus excessos. Porém, o texto dele impressiona pela riqueza de detalhes, criando diálogos, descrevendo as situações minunciosamente'', avalia a pesquisadora.
Célia lembra que o estilo Costallat foi seguido ainda em publicações, como a revista ''Realidade'', na década de 60. Depois disso, recaiu sobre o jornalismo uma ausência de criatividade, que poderia deixar de ser sentida.
O jornalista dizia que somente olhava e narrava os fatos. Sobre os ''Mistérios do Rio'', Costallat dizia que todos os personagens não moravam na sua imaginação, mas na verdade, o que lhe colocava nos ombros uma tarefa em dobro de escrever de maneira sugestiva, interessante e sem faltar com o compromisso de ser verdadeiro.
A atual crise de credibilidade no jornalismo brasileiro não tem permitido o aparecimento de novos nomes na arte que, como em Costallat, a assinatura das matérias convidava à leitura, prendendo o leitor por um estilo inconfundível, gracioso e ondulante como uma mulher.


