Para quem leu as escrituras sagradas, sobre as quais se aprofundam os místicos, madre Leônia Milito, fundadora da Congregação das Irmãs Missionárias de Santo Antônio Maria Claret, soube traduzir essa arte aos que se debruçam sobre os seus textos, incluindo uma autobiografia, diário pessoal, poemas e cartas.
Aos poucos, o processo de beatificação da religiosa que, com dom Geraldo Fernandes, primeiro bispo de Londrina, fundou a congregação na cidade, em 1958, alcançando 17 países, tem revelado esses textos reunidos nos 42 volumes, que integram os documentos da causa, que pode torná-la a primeira beata do Paraná.
Em 2008, o processo completará 10 anos, coincidindo com o jubuleu de ouro da fundação da congregação. Hoje, às 19 horas, na Catedral Metropolitana, a arquidiocese londrinense antecipa as comemorações ao celebrar os 50 anos da chegada da religiosa à cidade, em 1957.
Numa das muitas cartas que escreveu aos amigos, parentes e irmãs de comunidade, a madre contou sobre as primeiras impressões sobre Londrina.
''É interessante lembrar, como a madre Leônia encontrava tempo para escrever, tendo uma vida apostólica tão intensa. Acho que escrevia à noite. Também tinha um caderninho, onde fazia as anotações, que serviriam aos seus textos'', comenta irmã Eucarística Lo Conte, 81 anos, religiosa italiana, que imigrou para o Brasil, com a jovem que nasceu em Sapri, província de Salerno, Itália.
Irmã Eucarística também era uma das passageiras no acidente automobilístico em que a madre morreu na BR-369, em Cambé.
Os escritos espirituais e poemas da religiosa, que também cultivava um refinado gosto musical, sempre apto a encantar os que a ouviam ao piano, são um importante legado.
Ao comentar sobre a obra literária da religiosa que a Igreja Católica concedeu o título de ''Serva de Deus'', irmã Terezinha Almeida, postuladora junto à Santa Sé da causa de beatificação de madre Leônia, ressalta que, apesar da simplicidade, os textos da fundadora da congregação são profundos.
''Não é tão simples de perceber essa profundidade. Mais do que intelectual tem uma teologia nata não sistemática. Ela é mística e para compreender a sua pedagogia é preciso entrar no seu mundo, entendendo a forma como ela se relacionava com Deus e os irmãos. São textos simples sobre coisas do cotidiano, mas que conseguem revelar a beleza do projeto do Pai na solidariedade para com os carentes'', afirma irmã Terezinha.
Com um frescor revigorante, os seus textos - escritos a mão - tentam alcançar algumas verdades, que não encerram somente as preocupações religiosas, mas buscam abraçar o homem.
''A tendência moderna de abolir todo esforço ético ou pessoal não prepara um verdadeiro progresso realmente humano'', anotou certa vez em seu diário espiritual.
A obra ainda olha para dentro do cristianismo que, nas considerações da madre não pode ser disposto ao conformismo.
Leônia não faz mesuras ao dizer que não cabe ao cristianismo uma ânsia tácita de evitar aborrecimentos, críticas, ironias e alimentar o desejo de aproveitar de cada circunstância.
''Por esses questionamentos, a gente percebe que se Deus é misericordioso num mundo capitalista em que tempo é dinheiro, para a madre, o tempo é graça de Deus, que deve ser aproveitado pelas pessoas ao sairem de si mesmas'', avalia irmã Terezinha.
Seguindo essa trajetória, Leônia afirmava que somente no silêncio que a palavra amadurece no profundo da alma, manifestando a sua riqueza. O que traduz uma vontade em estar diante não só de Deus, mas também dos homens totalmente aniquilada, reconhecendo que nada em si era estável.
A postuladora da beatificação da religiosa destaca que, apesar de já ter uma autobiografia e uma publicação do diário espiritual da madre, uma futura edição da biografia apresentado ao Vaticano, reunindo os documentos do processo, poderá ser colocada nas mãos dos que gostariam de conhecer a vida e a obra da fundadora da congregação.
O livro poderá ser publicado, quando a Santa Sé aprovar a beatificação da religiosa, o que depende ainda da comprovação dos milagres, que encaminham aos postulantes aos altares.

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