MEMÓRIA - Os vivos e os mortos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de agosto de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para Folha 2 

Não gosto de escrever necrológios, especialmente de quem você esteve tão próximo por tanto tempo, e disse tão de perto coisas que marcaram sua vida. Apenas a distância entre a tela e a poltrona. É morte compartilhada, enterro mútuo, você acaba meio junto no túmulo. Este título de que tanto gosto, "os vivos e os mortos", tomei mais uma vez emprestado do conto de James Joyce em "Dublinenses". A impressão da lógica esmagadora é que ficam os vivos e vão-se os mortos. Mas será que tem que ser assim mesmo, nesse mundo sempre infestado de mortos-vivos, zumbis teimosos que nunca se vão e que não nos deixam em paz ?
Se houve uma atriz que durante os anos 1960 encarnou para milhões de espectadores as delícias do encanto perverso da mulher francesa independente, sexualmente livre , emancipada, auto-suficiente, condescendente com as fantasias ingênuas dos homens mas autoritária com as fraquezas masculinas essa foi Jeanne Moreau. Características que coincidem com os diferentes papéis de "femme fatale" burguesa que a atriz com olhos de "opala" e voz que "me persuade" (adjetivos da letra de "Le Tourbillone", canção de seu personagem em "Uma Mulher para Dois"(Jules et Kim, 1962, Truffaut).
A mesma mulher fatal que viveu para Michelangelo Antonioni e Joseph Losey. Porque La Moreau nunca encarnou o tipo no padrão da opulência de Hollywood, mas a mulher triste e pouco graciosa, com voz rachada e olheiras profundas, olhar felino e bem mais sedutora do que parecia à primeira vista.
Em "Uma Mulher para Dois", ela era essa mulher caprichosa e cheia de vida que podia compartilhar dois homens de uma só vez e sobreviver a este propósito. Nem Brigitte Bardot nua cintilava como a liberalidade sexual de Jeanne Moreau. BB era uma gatinha sexy; já Moreau era a imagem do sexo vicioso, e assim a entenderam as legiões de fãs do cinema de autor da Nouvelle Vague e do drama pós-neorealista italiano. Em "A Noite", Antonioni filma a fragilidade desta mulher diante da morte e a angústia que transmitem suas caminhadas sem rumo por Milão, entre casas destruídas e modernos edifícios que simbolizavam as incertezas dessas andanças à esmo. Cena parecida se repetia em "Ascensor para o Cadafalso" (1960, Louis Malle), com a música de Miles Davis ao fundo.
Mas o papel que a converteu em musa sádica foi "Eva" (1962, Joseph Losey), até que Orson Welles a canonizou através de três interpretações: "O Processo" (62), "Chimes at Midnight"(65) e "Uma História Imortal" (68). Hoje, este cinema de corte naturalista, em busca de autenticidade e repleto de cenas improvisadas que tanto fascinaram os espectadores semicultos daquela década resulta um tanto de mau gosto ou vulgar, um kitsch pretensioso.
É preciso enfatizar que Jeanne Moreau não era uma atriz intensa e excessiva como, por exemplo, Bette Davis. La Moreau era uma atriz livre, que interpretou personagens sem psicologia mas com o dom de ser ela mesma com naturalidade: indolente, caprichosa, malvada, viciosa e sedutora, como uma menina que se aborrece com sua vida burguesa de luxo e sem objetivos. Sua carreira transcorreu com suavidade artística desde que trabalhou com Louis Malle no controvertido filme "Os Amantes" (1958), no qual interpretava uma mulher casada que rompe todas as convenções.
pequeno-burguesas para escapar com o amante. Seus anos mais felizes se fecham com "O Diário de Uma Camareira"(64), de Luiz Buñuel. Ms ela continua até há pouco a atuar, com a mesma paixão, com essa rara naturalidade para transfigurar-se na pele mesma e na retina de qualquer espectador.


