MEMÓRIA - Olhar apurado sobre Wilson Simonal
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terça-feira, 21 de dezembro de 2004
Keila Jimenez<br> Agência Estado 
Em junho completam-se cinco anos da morte do cantor Wilson Simonal. Ídolo máximo do show biz brasileiro na década de 60, morreu no ostracismo e carregando o peso da pior fama do mundo: a de delator. O casseta Cláudio Manoel quer aproveitar a data para contar essa história. O humorista está há dois anos produzindo um documentário sobre Simonal, um polêmico personagem da MPB.
Mais do que imagens clássicas do cantor, o documentário que tem roteiro assinado por Nelson Motta reunirá depoimentos de gente famosa que participou da vida de Simonal, e uma parte investigativa que tenta esclarecer pontos nebulosos dessa biografia.
''Sua história é uma das mais malucas que eu conheço'', fala Cláudio Manoel. Simonal foi um dos primeiros cantores brasileiros a lotar um estádio com um show. Vendeu milhões de discos, ficou rico, mas encontrou sua derrocada no início dos anos 70, quando foi acusado de ser o mandante de uma surra dada por dois policiais no contador de sua firma o sujeito teria roubado o cantor. Denunciado, Simonal foi condenado. Durante o inquérito, um agente do Dops revelou que o cantor tinha sido informante do órgão.
''Nunca provaram nada contra ele. Ninguém sabe quem ele delatou. Ninguém foi atrás do cara que o teria roubado. Se ele fosse informante do Dops, por que não se deu bem na época da ditadura?'', questiona Cláudio. ''O cara virou uma lepra. A classe artística o apedrejou. Tem muitos pontos nebulosos nessa história que eu queria entender. Será que se ele não fosse negro seria assim?''
O humorista diz saber que o comportamento ''marrento'' do cantor contribuiu para que essa fama de ''delator'' se espalhasse. ''Dizem que ele comprou uma cobertura em Ipanema e os vizinhos passaram a evitar subir no elevador com ele porque ele era negão. Simonal, então, passou a só andar de smoking no prédio'', diz Cláudio. ''Ele mantinha a linha 'vou pagar para ver'''.
Cláudio, que conta com o apoio da família de Simonal para produzir o documentário, já colheu depoimentos dos filhos do cantor, Simoninha e Max de Castro, além de gente que acompanhou de perto o drama do cantor, como Tony Tornado e Chico Anysio. Boni, Pelé e Ziraldo também devem participar. Ziraldo e Jaguar eram do time do ''Pasquim'', jornal que se referiu ao cantor como ''o dedo-duro da ditadura''. ''Depois de muito insistir, o Jaguar falou comigo. Não quero julgar ninguém, nem inocentar o Simonal. Quero contar uma história'', explica Cláudio.
Entre as imagens clássicas reunidas na fita estão cenas da extinta TV Tupi e do programa Show em Si Monal, da Record. ''Duro é pagar por elas'', conta ele, que está bancando o sonho do próprio bolso. ''Muita gente já me aconselhou a deixar essa história de lado, a não mexer com isso, mas vou até o fim'', diz.
Até dois detetives, um em São Paulo e outro no Rio, foram contratados pelo humorista para localizar pessoas que conviveram com o cantor na época. Muitas delas já morreram. ''Ele foi apagado da música brasileira, teve problemas com bebida, ficou falido, brigou com a família. É muita desgraça'', lembra. ''Até os shows dos filhos ele não queria ver. Foi assistir a alguns escondido, tinha medo de que sua sina atrapalhasse os meninos. Nem um assassino paga um preço tão alto assim!'' Cláudio Manoel pretende lançar o filme em junho.


