MEMÓRIA - O músico que reinventou o jazz
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sexta-feira, 11 de março de 2005
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
As lendas criadas em torno do saxofonista Charlie Parker se multiplicaram através de seus biógrafos. Após sua morte, ocorrida há exatamente 50 anos, não houve quem deixasse de estampar-lhe o figurino de herói trágico.
A mitologia foi intensificada com o filme Bird, que Clint Eastwood levou às telas em 1988. Na época, o diretor definiu o longa como a história de um americano do meio-oeste que inventa um grande estilo musical, ao mesmo tempo em que vive a 200 quilômetros por hora.
Parker virou o jazz de cabeça para baixo. Inventou o bebop ao lado de Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e outros companheiros de boemia nos bares enfumaçados do Harlem novaiorquino. Foi o maior improvisador da música do século XX. Visionário, trouxe a modernidade para o jazz revolucionando as bases harmônicas, melódicas e rítmicas vigentes na década de 40.
Autodidata, aprendeu a tocar na varanda da casa, em Kansas City. Aos 16 anos, já era músico profissional. Estabeleceu reputação em Nova York, embora tenha tocado e gravado alguns discos em Los Angeles. Amante de copos, seringas e mulheres, teve uma vida repleta de episódios escandalosos. Certa vez, cortejou duas mulheres quase que simultaneamente, casando-se com uma em 1948 e indo viver com a outra dois anos depois sem se dar ao trabaho de se divorciar da primeira.
Durante algum tempo, os donos de casas noturnas temiam contratá-lo com receio de que ele desse balão ou subisse chapado no palco. Pelo excesso de álcool, chegou a pesar 100 kg. Nesse período, tentou o suicídio inserindo grande quantidade de iodo. Invariavelmente dopado e na penúria, tocou fogo num quarto de hotel após sair de uma sessão de gravação mal-sucedida.
Na ocasião, passou seis meses internado num hospital para desintoxicação de viciados. Ao sair, entrou numa fase de euforia criativa, responsável por algumas de suas mais empolgantes apresentações e gravações. Os historiadores costumam sacralizar o dia 26 de novembro de 1945 como a data mágica do bebop. Foi quando o saxofonista gravou pela primeira vez com seu quinteto para o selo Savoy.
No estúdio, ele é acompanhado por Miles Davis (trompete), Bud Powel (piano), Curley Russel (baixo) e Max Roach (bateria); além de Sadik Hakim e Dizzy Gillespie em participações especiais. Nesta sessão, ele registrou três composições clássicas: Nows The Time, Billies Bounce e Ko-ko. Viriam outras, executadas com as mais diversas formações.
Parker e sua gangue de virtuoses enterraram a era do swing. Não faziam música para dançar, mas para escutar. A nova linguagem consistia de improvisações que variavam da ornamentação da melodia original à organização de novos padrões de linhas melódicas extremamente velozes. O estilo valorizava o virtuosismo, as frases complexas e as notas dissonantes.
O sax-alto de Parker sobressaía com fraseados de técnica incomparável, pausas inesperadas, extensão de acordes e fragmentação de notas. Podia tanto criar atalhos dentro da composição como alongar as linhas melódicas em solos politonais estridentes. Segundo alguns estudiosos, o bebop representou a liberdade de improvisação dos pequenos conjuntos em relação à rigorosa disciplina das big bands.
Na época, houve grande rejeição do público e de músicos tradicionais. O bebop soava para eles como se os solistas estivessem entrando muito cedo ou tarde demais com frases em suspenso ou estavam tocando fora do ritmo ou no tom errado. No swing, as notas importantes numa frase ou o momento da mudança de acorde coincidiam com a tradicional batida forte. O bebop revertia estas convenções musicais para acentuar tempos fracos.
Parker impactou toda uma geração de músicos, que o viram como um modelo a seguir. Legou peças incansavelment citadas como obras-primas do jazz: Scrapple From The Apple, Dewey Square, Bird Of Paradise, Bongo Bop, Crazelogy, Bluerbird e Confirmation. Apreciador de ritmos latinos, gravou com o maestro cubano Machito, além de um álbum que inclui a brasileiríssima Tico-Tico no Fubá (de Zequinha de Abreu, gravado com sexteto em 1951).
Entusiasta da música de Debussy, Stravinski e Gershwin, gravou também com orquestras de cordas registrando standards como Abril em Paris, Summertime e Lover. Sua última sessão em estúdio foi em 1954, com repertório de músicas de Cole Porter. Um ano depois, no dia 12 de março, o mundo do jazz entraria de luto com sua morte, provocada por uma pneumonia lombar.
Durante o velório, o baixista Charles Mingus declarou: Todos os músicos de bebop estavam esperando o novo disco de Charlie para saber o que tocar. O que ele vão fazer agora?.


