As lendas criadas em torno do saxofonista Charlie Parker se multiplicaram através de seus biógrafos. Após sua morte, ocorrida há exatamente 50 anos, não houve quem deixasse de estampar-lhe o figurino de ‘‘herói trágico’’.
A mitologia foi intensificada com o filme ‘‘Bird’’, que Clint Eastwood levou às telas em 1988. Na época, o diretor definiu o longa como ‘‘a história de um americano do meio-oeste que inventa um grande estilo musical, ao mesmo tempo em que vive a 200 quilômetros por hora’’.
Parker virou o jazz de cabeça para baixo. Inventou o bebop ao lado de Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e outros companheiros de boemia nos bares enfumaçados do Harlem novaiorquino. Foi o maior improvisador da música do século XX. Visionário, trouxe a modernidade para o jazz revolucionando as bases harmônicas, melódicas e rítmicas vigentes na década de 40.
Autodidata, aprendeu a tocar na varanda da casa, em Kansas City. Aos 16 anos, já era músico profissional. Estabeleceu reputação em Nova York, embora tenha tocado e gravado alguns discos em Los Angeles. Amante de copos, seringas e mulheres, teve uma vida repleta de episódios escandalosos. Certa vez, cortejou duas mulheres quase que simultaneamente, casando-se com uma em 1948 e indo viver com a outra dois anos depois sem se dar ao trabaho de se divorciar da primeira.
Durante algum tempo, os donos de casas noturnas temiam contratá-lo com receio de que ele desse balão ou subisse chapado no palco. Pelo excesso de álcool, chegou a pesar 100 kg. Nesse período, tentou o suicídio inserindo grande quantidade de iodo. Invariavelmente dopado e na penúria, tocou fogo num quarto de hotel após sair de uma sessão de gravação mal-sucedida.
Na ocasião, passou seis meses internado num hospital para desintoxicação de viciados. Ao sair, entrou numa fase de euforia criativa, responsável por algumas de suas mais empolgantes apresentações e gravações. Os historiadores costumam sacralizar o dia 26 de novembro de 1945 como a data mágica do bebop. Foi quando o saxofonista gravou pela primeira vez com seu quinteto para o selo Savoy.
No estúdio, ele é acompanhado por Miles Davis (trompete), Bud Powel (piano), Curley Russel (baixo) e Max Roach (bateria); além de Sadik Hakim e Dizzy Gillespie em participações especiais. Nesta sessão, ele registrou três composições clássicas: ‘‘Now’s The Time’’, ‘‘Billie’s Bounce’’ e ‘‘Ko-ko’’. Viriam outras, executadas com as mais diversas formações.
Parker e sua gangue de virtuoses enterraram a era do swing. Não faziam música para dançar, mas para escutar. A nova linguagem consistia de improvisações que variavam da ornamentação da melodia original à organização de novos padrões de linhas melódicas extremamente velozes. O estilo valorizava o virtuosismo, as frases complexas e as notas dissonantes.
O sax-alto de Parker sobressaía com fraseados de técnica incomparável, pausas inesperadas, extensão de acordes e fragmentação de notas. Podia tanto criar atalhos dentro da composição como alongar as linhas melódicas em solos politonais estridentes. Segundo alguns estudiosos, o bebop representou a liberdade de improvisação dos pequenos conjuntos em relação à rigorosa disciplina das big bands.
Na época, houve grande rejeição do público e de músicos tradicionais. O bebop soava para eles como se os solistas estivessem entrando muito cedo ou tarde demais com frases em suspenso – ou estavam tocando fora do ritmo ou no tom errado. No swing, as notas importantes numa frase ou o momento da mudança de acorde coincidiam com a tradicional batida forte. O bebop revertia estas convenções musicais para acentuar tempos fracos.
Parker impactou toda uma geração de músicos, que o viram como um modelo a seguir. Legou peças incansavelment citadas como obras-primas do jazz: ‘‘Scrapple From The Apple’’, ‘‘Dewey Square’’, ‘‘Bird Of Paradise’’, ‘‘Bongo Bop’’, ‘‘Crazelogy’’, ‘‘Bluerbird’’ e ‘‘Confirmation’’. Apreciador de ritmos latinos, gravou com o maestro cubano Machito, além de um álbum que inclui a brasileiríssima ‘‘Tico-Tico no Fubᒒ (de Zequinha de Abreu, gravado com sexteto em 1951).
Entusiasta da música de Debussy, Stravinski e Gershwin, gravou também com orquestras de cordas registrando standards como ‘‘Abril em Paris’’, ‘‘Summertime’’ e ‘‘Lover’’. Sua última sessão em estúdio foi em 1954, com repertório de músicas de Cole Porter. Um ano depois, no dia 12 de março, o mundo do jazz entraria de luto com sua morte, provocada por uma pneumonia lombar.
Durante o velório, o baixista Charles Mingus declarou: ‘‘Todos os músicos de bebop estavam esperando o novo disco de Charlie para saber o que tocar. O que ele vão fazer agora?’’.

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