Curitiba - A sensação é de estar entrando numa catedral. Pelo menos é preciso o mesmo silêncio e respeito para conhecer um espaço que guarda uma das obras mais valiosas tanto na questão artística quando comercial, ambas imensuráveis da arte paranaense. O local é um sotão localizado no imponente Castelo do Batel, em Curitiba, onde o artista plástico Miguel Bakun ficou literalmente internado por um período de tempo não registrado pela história e fez um trabalho mais que instigante. Pintou os cerca de 640 metros quadrados do espaço com obras impressionantes, que misturam escolas e influências distintas da arte para criar um ambiente único, particular e improvável.
Depois de subir alguns lances da escada de madeira devidamente restaurada do castelo que serviu de moradia para a família do ex-governador do Paraná Moysés Lupion (entre 1947 e 1969), chega-se ao misterioso espaço, um dos poucos ainda restritos à visitação no recém-restaurado prédio. O que se vê não são pinturas comuns. A princípio é possível identificar os traços que marcaram o trabalho do artista. Paisagens paranaenses, pinheiros e natureza ilustram a entrada do local, onde supostamente Bakun teria começado a trabalhosa pintura do sótão. Mas depois acontece o imprevisível.
Ele preeencheu todo o espaço, e por todo entende-se desde vigas ao teto e emendas, com pinturas exuberantes. Algumas alegorias feitas com moldes e outras figuras que povoaram seu imaginário. Depois das paisagens tradicionais, encontra-se desenhos de touradas, mulheres com trajes sensuais e até desenhos rupestres. É uma miscelânea de figuras que formam um desenho único. O desenho do que se passava na mente do artista. No anexo da parte superior do sótão, por exemplo, uma construção chamada de torreão (em formato curvo), Bakun deu a impressão para quem entra no espaço de estar em um farol, provavelmente resquícios da sua experiência na marinha.
''Ele criou um ambiente próprio aqui. E o mais interessante é que, pelos registros, ninguém encomendou isso a ele'', conta um dos proprietários do prédio e neto de Moysés Lupion, o engenheiro Marcelo do Amaral Lupion. Ele conta que a data aproximada da visita do artista no castelo foi o início da década de 50. Pelos estudos do engenheiro, essas pinturas devem ter sido feitas entre 1950 e 1951 e o pintor teria ficado, a convite do ex-governador do Paraná, entre seis meses e um ano no local. Para ele, que saia pouco durante o trabalho, era levado comida e tinta.
As informações não são oficiais. Para levantá-las o engenheiro contou com escritos deixados pelo avô e com histórias de familiares. ''Mas algumas parentes com quem conversei ainda eram crianças quando o Bakun esteve aqui. Ele era uma figura diferente, depressiva. Era magro e alto e estava sempre com aquele avental de pintura. Imagine, as crianças tinham medo dele'', conta o engenheiro.
Miguel Bakun não era exatamente de uma família nobre, como seus conterrâneos de pintura. Em Ponta Grossa, onde passou parte da sua adolescência, por exemplo, trabalhou até como aprendiz de alfaiate. Aos 15 anos ingressou na Escola de Aprendizes da Marinha em Paranaguá. Transferiu-se para o Rio de Janeiro para matricular-se na Escola de Grumetes. Na Marinha de Guerra, conheceu José Pancetti, ainda no início da carreira de pintor, um encontro que, para Bakun, foi decisivo.
Em 1930, uma queda sofrida no navio o impossibilitou de continuar a carreira naval. Transferiu-se então para Curitiba, onde passou a dedicar-se exclusivamente à pintura. Mas algumas histórias revelam bem o artista marginalizado que foi. Conta-se, por exemplo, que ele teria ganhado como prêmio de um salão, um estojo de pintura. Seus conterrâneos diziam que o prêmio o ''ajudaria a aprender a pintar''. Não se sabe se maldades como essa contribuíram para sua personalidade circunspecta e evasiva e seu comportamento depressivo, mas infelizmente o desfecho do artista não foi dos melhores. Ele se matou aos 54 anos, em 1963.

mockup