Curitiba - Poeira, lama e muita mata verde. Foi o cenário que o engenheiro Américo Sato encontrou quando chegou em Londrina, em 1950. Então recém-formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, o rapaz nem mesmo esperou a formatura para desbravar o norte paranaense. Assim que as aulas encerraram, viajou em busca da terra vermelha. ''Queria saber sobre a pujança da região, mas encontrei sujeira e muito mato''. Nada disso, porém, assustou o jovem engenheiro. Poucos dias depois da sua chegada em Londrina, já instalado no Hotel Cravinhos, foi procurado por quatro homens para fazer um levantamento topográfico de uma região ainda nativa, a seis quilômetros de Londrina.
''Ninguém acreditava que um jovem recém-formado iria para o mato fazer trabalho pesado. Mas eu fui. Não tinha estrada e precisávamos abrir caminho a facão. Foi o meu primeiro trabalho na região'', conta o engenheiro. Hoje, aos 80 anos, completados em dezembro último, Américo Sato se orgulha de ser um dos fundadores de Londrina. Ele é responsável por centenas de obras, a maioria prédios comerciais e residenciais que fazem parte da história da cidade, como o Centro Comercial Júlio Fuganti, os edifício residenciais Santa Mônica e Cínzia e o prédio onde funcionava o Hotel Bandeirantes.
Nascido em Lins, em São Paulo, Sato teve uma educação austera. O pai, Ziro Sato, chegou ao Brasil em 1910 e anos mais tarde assumiu o cargo de cônsul no interior paulista. ''Quando ele morreu, em 1944, mudei para Curitiba para estudar Engenharia Civil'', diz. O cenário mundial pós-guerra, de escassez e destruição, contribuiu para que Américo Sato optasse pela construção civil. Na época, não existiam faculdades de arquitetura, e o engenheiro era responsável por projetar e construir as edificações.
Bem-humorado e com impressionante memória para datas, Américo Sato falou com a reportagem da Folha, em Curitiba, na casa onde mora desde meados da década de 60, quando precisou sair de Londrina, fugindo da perseguição militar. ''Apesar da minha educação, sempre fui de esquerda. Na ditadura, vi quase todos os meus amigos serem presos'', lamenta. Nessa época, já casado e pai de quatro filhos, o engenheiro ainda mantinha uma rigorosa rotina profissional.
''Eu trabalhava de sol a sol. Ia para a obra com os pedreiros. Como não tinha mão-de-obra especializada, precisava ensinar tudo para as pessoas que trabalhavam na construção'', lembra, complementando que a mão-de-obra era formada principalmente por nordestinos que chegavam ao norte paranaense em paus-de-arara. Entre as dificuldades enfrentadas na época, o engenheiro lembra que um dos obstáculos era conseguir o material necessário para a construção. ''A areia era procedente do Rio Tibagi e precisava ser lavada antes de ser utilizada. O cimento vinha de Curitiba, mas muita coisa vinha de São Paulo, de trem. Uma obra não demorava menos que dois anos para ficar pronta'', revela.
Na época, ele era sócio da loteadora Veronesi, da qual se desligou quando se mudou para Curitiba. E das quase duas décadas vividas em Londrina, Sato se lembra de situações curiosas. Algumas engraçadas, como o fato das maiores transações comerciais da cidade, envolvendo grandes quantias em dinheiro, serem feitas na extinta Casa da Diana, um bordel localizado no centro da cidade. ''Todo mundo ia lá, desde prefeitos, a ministros e vereadores. O sentido da visita não era sexual, mas de negócios. E grande negócios foram feitos lá'', lembra. Cita, sem mencionar nomes, por exemplo, a compra de quase cem aviões bimotores, ''negócio da China'' que foi fechado entre as donzelas da Casa da Diana.
Outros casos, porém, não são recordados com satisfação, como os trabalhos que o engenheiro deixou de receber. ''Eu construí os três seminários mais importantes da cidade, mas nunca recebi pelas obras'', lamenta. O caso, segundo alega o engenheiro, tramita na Justiça.
Além de ser responsável pelos primeiros prédios erguidos em Londrina, Sato é também autor de algumas dezenas de livretos sobre Engenharia Civil. Em setembro do ano passado, o engenheiro paulista foi homenageado pela Câmara de Vereadores e recebeu o título de Cidadão Honorário de Londrina. Aposentado desde 1991, ele continuou trabalhando até recentemente, quando foi ''impedido'' pela família. ''Eu queria continuar, mas minha família não deixa. Até lacraram meu escritório'', brinca.
Mas mesmo sem se envolver com projetos e construções civis, Sato se dedica aos projetos pessoais. Agora, pretende escrever suas memórias, recheadas de histórias curiosas que se misturam com a própria história da construção do Estado. A obra ainda não tem data para ser concluída.

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