O Museu Histórico de Londrina completou, no dia 18 de setembro, 33 anos de idade. Difícil acreditar, pois acumula experiências, conhecimento e sabedoria de muitos anos mais e conserva, na aparência de uma estação ferroviária dos anos 50, de estilo inglês, revitalizada no fim da década de 90, o frescor das construções que vencem o tempo, situando-se entre um antes e um depois que não se definem, mas se movimentam na busca de contornos em constante oscilação. Chega-se lá por um túnel, que começa na praça pública Rocha Pombo, carente de conservação e cuidados, e termina no Jardim do Pioneiro, uma aprazível extensão de verdes, entremeada de bancos convidativos, de luminárias antigas e pitorescas, de plantas e árvores oriundas dos cinco continentes e da mata nativa da região, e de um arremedo de cafezal, o ouro verde patrocinador do crescimento da cidade.
Surpreende saber, no entanto, ao percorrer a exposição permanente do Museu, que tudo começou com palmitos, abundantes nas matas dos idos anos 20 e 30 do século XX, e que foram ''ranchos de palmito'', tais como revela a singeleza da estrutura de madeira levantada sobre o chão de terra batida um dos muitos ''cenários'' do Museu as primeiras moradias dos pioneiros. Os ingleses haviam chegado ao Brasil em 1924, para negociar dívidas contraídas pelo Governo. Na ocasião, integrantes do grupo britânico visitaram fazendas no norte do Paraná e se encantaram com ''tanta terra deserta de gente'', acabando por comprar do estado mais de 1 milhão e 200 mil hectares de área. Comprometeram-se, então, a promover, por meio da Cia. de Terras Norte do Paraná, a colonização da região que viria a se tornar oficialmente, no dia 10 de dezembro de 1934, quando ainda só contava 554 edificações, a cidade chamada de ''a pequena Londres'' ou Londrina.
Os negócios, realizados em um escritório, como aquele que se vê ''revivido'' pelo Museu , e que ficava onde hoje se situa o Cine-Teatro Ouro Verde, tratavam, em geral, da venda de lotes de 30 hectares, para pagamento em quatro anos, com juros de 8% ao ano, exigindo do comprador o compromisso de zelar pela manutenção de, ao menos, 10% da mata nativa, em especial daquela localizada nas cabeceiras e margens dos rios. Os britânicos eram bons de propaganda e logo atraíram para a extensa área famílias e grupos das mais diversas etnias italianos, japoneses, árabes, alemães, poloneses, russos... que juntaram forças com os migrantes internos, ensejando a urbanização com base no vigor rural.
Reconhece-se essa urbanização por meio de alguns de seu ''ícones'' mais representativos como a barbearia; o consultório do dentista e seu assustador arsenal de instrumentos; o ateliê do alfaiate; a joalheria; o armazém de ''seccos e molhados''; o maquinário utilizado pela imprensa; a serraria, a olaria... Outros símbolos do passado se sucedem, sob o olhar nostálgico do visitante, que acredita ''ouvir'' o barulho das velhas máquinas de escrever, o repique da bolinha lançada no terreno da memória pela raquete de tênis, o som roufenho do gramofone e pessoas conversando baixinho enquanto trabalham em mesas de madeira nobre, feitas para durar.
Aspectos do rural perfilam-se igualmente nesse desfile de outros tempos, revelando o galpão da fazenda e os chapéus dos fazendeiros; as selas do cavalos; o machado e a foice exigidos pelo trabalho pesado; o facão, a espingarda, e o nunca esquecido ''chora paulista''. Esse indispensável equipamento dos pioneiros, também chamado de ''limpa-pés'', remonta a um tempo de ruas e estradas de terra vermelha, quase sempre enlameadas, às quais os paulistas, ''reis'' do paralelepípedo e do asfalto, já não estavam mais acostumados, sendo essa a razão do ''choro''.
Avança-se, então, pela saga do café, iniciada no período esperançoso do pós-guerra, em 1945, e que dura buliçosos 10 anos, até a primeira grande geada, de 1955. O declínio acentua-se depois da segunda geada devastadora, de 1975, obrigando a pulverização da lide agrícola em diferentes e multi-variados interesses. Por esse momento de longa duração, observam-se, a convite do Museu, as mudanças ocorridas nos aspectos culturais e urbanos da cidade que, em 1960, 26 anos depois de sua emancipação política, já contava com 134.821 habitantes.
Os nomes que hoje indicam logradouros públicos por toda Londrina também estão lá, vinculados a histórias palpitantes de vida, contadas infinitamente, para quem as quiser ouvir. Museu é assim, um encontro sem hora marcada com o passado, uma descoberta das raízes profundas da cidadania, que também se fortalece por meio da história.

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