MEMÓRIA - Mito cheio de balangandãs
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quinta-feira, 04 de agosto de 2005
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Taí, ela fez tudo para que gostássemos dela, mas, mesmo que a maioria tivesse lhe dado o coração, ela morreu sozinha, de enfarte, depressiva, na madrugada do dia 5 de agosto de 1955, em sua casa em Hollywood. Carmen Miranda, a Pequena Notável, a Brazilian Bombshell, a brasileira mais conhecida no exterior, tornou-se um mito meio século depois de sua morte. Desfiles de moda, espetáculos musicais, megaexposição, lançamento de jóias inspiradas em seus balangandãs, uma agenda recheada promete lembrar e discutir a importância da mulher que transformou a roupa estilizada de baiana em símbolo conhecido no mundo todo.
Portuguesa de Marco de Canavezes, vinda com menos de um ano para o Brasil e filha de um barbeiro que sofreu com a fome, Maria do Carmo Miranda da Cunha pouco revelava o perfil da pequena mulher (1,52 m) que se tornaria paixão nacional nos anos 1930 como cantora a marchinha ''Taí'' (Pra Você Gostar de Mim), de Joubert de Carvalho, lançada em 1931, foi recorde absoluto de vendas durante décadas, ultrapassando a marca de 36 mil cópias. A busca de explicações para essa transformação é a principal tarefa enfrentada pelo escritor Ruy Castro, que há anos pesquisa a trajetória de Carmen.
Para ele, que pretende lançar até o fim do ano a volumosa biografia já intitulada Carmen, pela Companhia das Letras, a cantora, às vésperas do sucesso, já era uma artista formada. Castro dissecou as origens da família e sua mudança para o Rio de Janeiro, onde morou em diversas casas até conquistar a consagração. ''Existem diversas versões para esse período, o que exige um trabalho redobrado de checagem de informações'', comenta o biógrafo.
Carmen nasceu pronta para glória: o charme irresistível, o bom humor, as brincadeiras de moleca, a forma única de cantar chamaram a atenção logo em suas primeiras gravações. Mesmo que as músicas que lhe caíssem nas mãos ainda exibissem um forte ranço rural e de reduzida importância artística. Os clássicos, porém, acabaram se impondo: ''Primavera no Rio'', de João de Barro; ''Na Batucada da Vida'', de Ary Barroso; ''Alô, Alô...'', de André Filho, além das parcerias com Assis Valente (''Minha Embaixada Chegou'') prepararam Carmen para o sucesso internacional, que começou em maio de 1939, quando chegou aos Estados Unidos para um musical na Broadway.
Logo, ela alcançaria Hollywood na mesma época em que o esforço de guerra obrigava os americanos a olharem com suspeito carinho para a América Latina. Com Serenata Tropical, de 1940, Carmen estreava na meca do cinema e iniciava um ciclo que totalizaria 14 filmes.
Mas, ao mesmo tempo em que solidificava as características de ícone (a roupa de baiana, os trejeitos com os braços, a mistura de ritmos), Carmen preparava seu fim ao se tornar dependente química. Nos últimos anos de vida, ela conseguia dormir apenas com barbitúricos e, para voltar à tona, entupia-se de estimulantes.
A mistura levava-a à depressão, obrigando seu médico a tentar diminuir as doses. Com isso, sofria com a abstinência, o que aumentava suas dores. Tentou a recuperação ao voltar para o Brasil, em 1954, quando exibia sinais claros de envelhecimento. No ano seguinte, de volta a Hollywood, morreu sozinha no banheiro, onde foi encontrada pela manhã.


