MEMÓRIA - Ilusão de ótica
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Ana Clara Werneck<br> TV Press 
Em junho de 1977, ao som da bossa ''Vai levando'', ia ao ar pela primeira vez ''Espelho Mágico'', uma trama inovadora. A proposta do autor Lauro César Muniz era fazer uma meta-novela, que expusesse a vida de artistas de várias áreas. Para isso, criou subtramas contidas dentro da trama original. Havia um núcleo cujos personagens eram atores e participavam de uma novela chamada ''Coquetel de Amor''. ''O nome 'Espelho Mágico'' é porque era uma novela-espelho, que retratava a realidade invertida'', explica Lauro.
Os protagonistas eram Tarcísio Meira e Glória Menezes, que já formavam na época um casal de atores famosos na vida real. Na novela, interpretavam Diogo Maia e Leila Lombardi, que constituíam o par romântico principal em ''Coquetel de Amor''. A coincidência criada era justamente a proposta do autor, que foi ainda mais realista: Diogo, papel de Tarcísio, protagonizava ainda a peça ''Cyrano de Bergerac'', enquanto a personagem de Glória assumia a função de mocinha em um filme. Mostrar que os artistas trabalham muito era uma das estratégias de Lauro para tentar desglamourizar a profissão. Como não poderia deixar de ser, em ''Coquetel de Amor'' havia um autor, inspirado em Lauro César. Quem tinha a incumbência de ser ''porta-voz'' dele, sob o nome de Jordão Amaral, era Juca de Oliveira. ''O texto de Jordão era todo calcado na minha experiência de vida'', confessa Lauro.
Jordão era perdidamente apaixonado por Leila, e demonstrava seu sentimento através do texto da novela. No entanto, era casado com Nora Pelegrini, uma grande atriz que, desde que se casou, não foi mais convidada para bons papéis. Em ''Coquetel de Amor'', Nora era a empregada Assunta. ''Foi um trabalho difícil, pois ela tinha de aceitar um papel menor na novela do próprio marido'', conta Yoná Magalhães, intérprete de Nora. Outra coincidência estava no fato de que o diretor de ''Coquetel de Amor'', João Gabriel, era o papel de Daniel Filho, que dirigiu ''Espelho Mágico'' até o capítulo vinte, quando assumiu Gonzaga Blota.
Uma trama paralela muito explorada na novela era o assédio aos artistas pela mídia. Carlos Eduardo Dolabella interpretava Edgar, colunista da revista ''Magia'' que se utilizava de métodos escusos para conseguir entrevistas das celebridades em uma época em que esse assunto não era tão discutido quanto hoje. ''A curiosidade sobre o mundo artístico sempre existiu. A diferença é que hoje isso foi vulgarizado'', compara Tony Ramos, que interpretava Paulo Morel, um bancário cujo sonho era ser ator. Este trabalho foi a estréia de Tony na Globo, e rendeu-lhe ainda durante a novela um convite para ''O Astro'', na qual era Márcio, o herdeiro dos Hayalla.
Fora a novela, a peça teatral e o filme fictícios, havia ainda um núcleo de teatro de revista dentro de ''Espelho Mágico''. Carijó e Lenita eram pai e filha, interpretados por Lima Duarte e Djenane Machado. Com a comédia televisiva, os dois tinham ficado sem trabalho e lutavam pelo gênero em extinção. A quantidade excessiva de subtramas confundiu o espectador e a audiência entrou em queda. ''Em um dado momento, os espectadores torciam para os conflitos de 'Coquetel de Amor''', atesta Lima, cujo fim de seu personagem foi um emprego no humorístico ''Praça da Alegria'', que era exibido na Globo de verdade.
Com a diminuição do interesse do público, a novela foi modificada, passando a focar mais os conflitos pessoais, como a crise conjugal de Diogo e Leila, motivada pelo ciúmes de Beatriz, enteada de Diogo, interpretada por Lídia Brondi. ''Houve uma queda, mas não foi significativa. Em nenhum momento houve censura ou pressão da emissora'', minimiza Lauro.


