MEMÓRIA - História do ouro branco registrada em livro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Como na doce lembrança de madrugadas antigas, orvalhada da poesia de Helena Kolody, que abre o livro ''Trabalhadores do Ouro Branco no Norte do Paraná'' - um álbum de fotografias que conta a saga da cultura algodoeira em Assaí (36 quilômetros a leste de Londrina) - , a história na lavoura é contada com cheiro de saudade.
Recentemente, o livro foi lançado por 30 alunos da oitava série do ensino fundamental do Colégio Barão do Rio Branco, em Assaí, que participaram do projeto de pesquisa orientado pela professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Regina Célia Alegro, e coordenado pelas professoras da escola, Cátia Rocha Gonçalves, Edná de Souza Gaspar e Janete de Oliveira Santos.
Pubicado pela Imprensa Oficial do Estado, com apoio da Secretaria de Estado da Cultura e do Núcleo Regional de Ensino de Cornélio Procópio, o livro é um passeio pela florada econômica da região, promovida pelo auge da cultura algodoeira na década de 50.
''É um período que coincide com a época em que a cidade tinha uma população de mais de 30 mil habitantes. Hoje, com a decadência da cultura, o município tem apenas cerca de 18 mil pessoas'', comentou a professora de História, Edná de Souza Gaspar.
Fotos em preto-e-branco retratam o colorido de uma época de ouro e a riqueza da ''Cidade do Sol Nascente'' - nome que Assaí ganhou em homenagem aos pioneiros japoneses.
''Entre as descobertas que os alunos fizeram com o projeto é que a cidade não foi colonizada somente pelos japoneses, mas que muitos nordestinos também ajudaram a construir Assaí'', destacou Edná.
Durante um ano e meio, os estudantes participantes do projeto visitaram as famílias dos trabalhadores rurais, colhendo histórias e fotografias.
As histórias serão contadas em um segundo livro, que deve ser publicado no final do ano, com apoio da Secretaria de Estado da Educação.
Nas 297 fotografias, há sempre ''uma cantiga de recordar'', como diz o poema de Kolody na abertura do livro. Uma ''vida que amanhecia'' com as famílias que chegaram à região para cultivar algodão.
São registros do cotidiano na lavoura, que não recusava nem a força das crianças, como narra um dos textos transcritos no livro, com o depoimento de José Delois Martins, um dos entrevistados pelos estudantes: ''Os piquininhos ficava brincando. E os mais grandinhu catava algodão. Num tinha negócio. Num tinha negócio di escola, não. Os pai num botava os fio na escola''.
Edná ressalta que o trabalho envolvia toda a família. Ela conta que alguns dos entrevistados lembraram que, quando os jovens se casavam, não ganhavam um carro, mas uma carroça com cavalos para a lida na lavoura.
Histórias de personagens, como a dupla de músicos Luiz Gonzaga da Silva e Joaquim Borges de Santana, que animava os bailes da época, da noiva que aparece numa foto rodeada dos amigos e familiares, das romarias, do público que aguardava em longas filas para assistir à exibição de um filme num dos dois cinemas da cidade, são registros de uma época de ouro colhidos pelos estudantes nas fotografias e depoimentos.
Como se fosse um tesouro, com mais de 50 horas de gravações, os dois volumes com as transcrições dos depoimentos e um caderno de campo, reunindo todos os passos da pesquisa, estão guardados em três baús.
Uma riqueza, que restaura uma época, com suas casas, festas, religiosidade e trabalho, que estão perfilados no livro, como diz os versos de Kolody: feito uma ''revoada de sonhos''.


