MEMÓRIA - Ecos do mito
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quinta-feira, 29 de setembro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Quase toda biografia esconde o desejo inconfessável de manchar reputações. James Dean foi vítima de uma pilha delas desde que espatifou seu Porsche Spider e sua vida numa estrada da Califórnia. Livros sensacionalistas já tentaram reduzí-lo à figura de um sadomasoquista doentio, mas o mito sobreviveu aos abutres.
Na passagem dos 50 anos de sua morte, celebrada hoje, é provável que centenas de visitantes se acotovelem para homenageá-lo no cemitério de Fairmount, pequena cidade dos Estados Unidos. A data repercute também no Brasil com o lançamento de uma caixa de DVDs contendo os três famosos longas-metragens protagonizados pelo ator, além de documentários e extras que incluem depoimentos, cenas suprimidas dos filmes e outras curiosidades.
Há uma sensação estranha em saber que, duas semanas antes de morrer, Dean foi a um estúdio de televisão gravar uma propaganda institucional sobre segurança no trânsito. No filmete, ele advertia sobre os perigos de dirigir em alta velocidade, recomendação que desobedeceria naquela fatídica sexta-feira em que seu carro foi transformado num monte de sucata (''ele mais parecia um maço de cigarros amassado'', conforme relato de uma testemunha do acidente).
Dean tinha apenas 24 anos. Dos três longas que participou, só teve tempo de assistir a ''Vidas Amargas'' (East of Eden), de Elia Kazan. ''Juventude Transviada'' (Rebel With a Cause), de Nicholas Ray, estreou três semanas depois da tragédia em Nova York. E ''Assim Caminha a Humanidade'' (Giant), de George Stevens, entrou em cartaz em novembro do ano seguinte.
Neste último, o ator teria apenas um papel coadjuvante ao lado de Elizabeth Taylor e Rock Hudson. Com sua morte, o filme foi remontado para realçar o personagem Jeff Rink, interpretado por Dean. Muitos críticos consideram seu desempenho aqui superior às suas participações anteriores, a melhor de sua meteórica trajetória.
Mesmo assim, os fãs preferem cultuar a imagem do ídolo em ''Vidas Amargas'' e ''Juventude Transviada'', que o eternizam como o jovem rebelde nos papéis de Cal Trask e Jim Stark. ''Assim Caminha a Humanidade'' mostra aquilo em que o inconformista poderia ter-se transformado, se a morte não o tivesse levado precocemente. O jovem revoltado, que entrou como tal para o imaginário do espectador de cinema, vira um velho ranzinza e racista.
Não é bem o que os mitômanos de plantão gostariam de ver na tela. Os próprios executivos de Hollywood preferiram explorar o glamour do garoto incompreendido, desajustado e autodestrutivo. Fabricaram, inclusive, um filão nem sempre bem-sucedido de filmes calcados no estereótipo. Embora Marlon Brando (1924-2004) tenha inaugurado o estilo, foi James Dean quem inscreveu o jovem na modernidade pautando atitudes para se contrapor aos pais e aos valores familiares.
Mudava-se, assim, a representação da garotada na tela. Na década de 50, a temática e o tratamento conferido aos personagens eram novidades. Pela primeira vez, a violência dos teenagers não tinha origem nas camadas mais pobres da população, mas era oriunda de um ''conflito de gerações'', da falta de compreensão entre pais e filhos americanos de classe média. Como viria a se tornar praxe, a morte de James Dean deu início a uma das mais necrófilas idolatrias da era midiática, o que o recém-lançado box de DVDs ajuda a perenizar.


