MEMÓRIA - E o tempo... O tempo não pára
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de julho de 2007
Jersey Gogel<br> Especial para a Folha2 
''Amor demais não atrapalha. Um filho rejeitado nunca conserta a cabeça. Um superprotegido tá limpo''. Foram essas as palavras que o cantor e compositor carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, usou para definir a estreita relação entre pais e filhos. E olha que com conhecimento de causa, já que o poeta teve ao longo de sua vida inúmeras dificuldades no relacionamento com seus pais Lucia e João Araújo.
Dezessete anos se passaram, e o roqueiro ainda vive na memória de muita gente. Suas músicas e poesias encantam, desde quem o ouvia nos tempos do Barão Vermelho, até hoje. Em entrevista exclusiva, Lucinha Araújo, como é conhecida a mãe de Cazuza, revela como foi a experiência de ter sido mãe aos 20 anos, e num misto de emoção e dor conta mesmo que ''Só as mães são felizes''.
Como era o filho Agenor da Costa Araújo Neto fora dos palcos?
Quando eu ouço falar esse nome, eu acho que é outra pessoa que nem é ele, por que pra mim ele já nasceu Cazuza como todo mundo sabe. Mas ele era um filho como outro qualquer, aliás, como outro qualquer não, muito melhor do que um outro qualquer, e era um filho único, uma criança com uma vida interior muito grande, por que todo filho único é assim, não é? Ele brincava muito sozinho, era muito inteligente, mas eu não sabia aquele ser humano que ele seria mais tarde, realmente eu vacilei um pouco por que ele era diferente e eu não notei, eu custei a notar. Eu só notei quando ele começou a dar trabalho por que enquanto ele foi um aluno exemplar eu achava ótimo.
Quando a senhora percebeu que seu filho seria um artista?
Olha, ser artista assim eu percebi quando ele foi para o Barão Vermelho, mas que ele era diferente eu comecei a perceber depois dos 15 anos, por que ele gostava de coisas diferenciadas, ele escrevia muito bem, eu achava que ele ia ser jornalista, mas cantor nunca passou pela minha cabeça, inclusive por que o pai dele trabalhava no meio artístico, eu achava que era um lugar muito comum, que ele jamais ia querer ir pra um lugar paralelo ao que o pai trabalhava, ia ter todas as dificuldades daquele meio, mas quando ele nos disse que queria um tempo pra poder cantar num conjunto, ele foi tão importante que o João que passou a ser pai dele, ao invés de ele o filho do João Araújo.
Ele chegou a começar o curso de Jornalismo?
Foi. Como tudo o que ele fazia né? Ele foi fazer vestibular. Por que o João disse pra ele assim: se você passar no vestibular eu vou te dar um carro. E ele como tava doido para ter um carro, ele passou no vestibular, ganhou o carro, mas não cursou. Aí, o João disse pra ele assim: mas meu filho faltou a promessa! Aí o Cazuza disse assim: papai você não disse pra eu cursar. Você disse se eu passasse no vestibular, aí eu passei e pronto, não falei que eu ia cursar! Então essa era mais uma irreverência dele que a gente foi aprendendo com o tempo, inclusive a nos deliciar com elas, não é?
O Cazuza dos palcos era o mesmo Cazuza de casa?
Mais ou menos. Eu sou muito alegre, ele puxou muito a mim. Eu sou muito brincalhona, alegre. Só que eu vivi em outra época. O pai dele é muito sério. E eu vivi em outra época. Estudei em colégio de freira, casei com o primeiro namorado, então não tive a oportunidade de exercer essa alegria toda, essa maluquice toda. E ele não, ele teve oportunidade, então ele foi aquele Cazuza ímpar né? Porque é difícil a gente conhecer outro igual a ele.
Como você o via no começo da carreira? Você se assustava?
Sempre fui tiete (risos). Então a primeira vez em que ele me convidou pra assistir a um show, era num condomínio lá na Barra da Tijuca, então fui com uma empregada antiga nossa, e nem falei pro pai dele. Ele tava de porre, uma coisa horrorosa, eu fiquei meio apavorada dizendo gente, onde é que isso vai dar? Foi o primeiro show do Barão Vermelho que eu vi. Depois quando ele fez em uma boate lá em São Conrado, eu aí levei o pai dele pra assistir. Eu achei tudo maravilhoso e perfeito, o João viu algumas coisas, mas o João viu ali que tava nascendo alguma coisa nova, né? Como olhos que ele tinha de expert da Música Popular Brasileira, mas tudo que ele fazia eu achava maravilhoso. O João ainda dizia e diz até hoje: Não, nem todas as músicas que nosso filho fez são boas Lucinha! Tem coisas que eu não gosto muito. Aí eu digo: eu gosto de todas. Não tem nada que eu não goste. Eu gosto de todas elas. Mas isso é questão de temperamento mesmo.
Como foi a reação da família e do próprio Cazuza ao se deparar com uma manchete da revista Veja que dizia: ''Cazuza. O Poeta agoniza em praça pública''?
Foi uma traição. Foi uma facada pelas costas. Ele (Cazuza) recebeu o cara na casa dele, que era editor da Veja no Rio, que aliás já morreu. De tão ruim que ele era, já morreu, ainda bem. E aí, ele recebeu o cara em casa, deu a entrevista todo feliz da vida por que ele ia ser capa da Veja, e fomos pra Petrópolis passar o fim de semana, aí, no domingo mandamos comprar a Veja e quando ele viu aquela foto e o título, nós todos entramos em parafuso. Ele passou tão mal que foi parar no hospital. E aí, meu marido ficou louco procurando o cara e queria matar o cara, porque isso não se faz com uma pessoa que está doente. Aquilo foi de uma maldade. E nós até hoje, você sabe que se ligarem pra mim como ligam da Veja eu atendo e falo: Não falo com a imprensa marrom! E pá... Desligo o telefone. É assim que eu faço. Sabe foi uma coisa que eu nunca mais perdoei. Eles fizeram uma coisa semelhante com a Elis Regina também. Isso não se faz com um ser humano.
Como você lhe dava com a boemia do Cazuza?
No começo quando ele morava comigo eu ficava na janela do quarto esperando ele chegar, chorando se ele chegasse tarde, e aí meu marido me proibiu de ficar na janela do quarto. Ele disse assim: 'Você está proibida de ficar na janela esperando. Você vai deitar e esperar ele chegar. Mas em pé você não vai ficar chorando na janela, então a minha vida era um...' Cada telefonema que a gente recebia a gente achava que tinha acontecido alguma coisa, por que a vida dele era uma corda bamba sempre né? E eu confesso a vocês que eu nunca pensei que o Cazuza iria morrer de doença. Eu sempre pensei que ele ia morrer num acidente ou de alguma outra loucura que ele tivesse feito. Então nunca achei que ele fosse morrer de doença, ainda mais dessa doença tão terrível.
Existia um choque de geração entre você, o Cazuza e o João?
Na minha época foi. Por que eu fui criada a imagem e semelhança da minha mãe. Tudo o que minha mãe queria eu fazia, casei com o primeiro namorado, tive o Cazuza logo em seguida, eu tinha 20 anos quando me casei... Então eu não sabia nada da vida. O Cazuza mesmo dizia: 'Mamãe, você casou com o primeiro namorado então você é virgem! Mulher de um homem só é virgem!' Ele vivia me dizendo isso. Agora o Cazuza viveu a revolução sexual, então foi diferente. Foi uma virada enorme. Então se a gente não aceitasse ele como ele era nós iríamos perder nosso filho. Então chegou um momento que a gente parou e falou assim: Espera aí! O que você quer da sua vida? É isso? Então a gente ta com você e não abre. E ai de quem falasse alguma coisa dele, por que a gente não deixava. E foi assim até o resto da vida.
Nesses 17 anos da morte do Cazuza, qual foi o maior legado que ele deixou para o Brasil?
Eu continuo a achar que foi a coragem. Por que até hoje não apareceu outro corajoso como ele. Não apareceu mesmo. Por que você tá com uma doença como essa e se declarar como soro positivo ha 17 anos atrás... Aliás foi há mais, foi há 19 anos atrás, eu acho que ninguém fez isso como ele fez. Então eu acho que ele deu um exemplo a milhões de soropositivos fazerem o mesmo e poderem viver suas vidas normalmente né? Foi uma pena que ele não alcançou esses remédios novos, porque no tempo dele só tinha o AZT, as nossas crianças hoje em dia tomam dezessete tipos de antiretrovirais diferentes, que é o que aconteceu nesses anos todos.
Agradeço por terem lembrado de mim. Um grande beijo.
(Colaborou com esta reportagem o acadêmico Rogério Cavalcante)


