MEMÓRIA - Cem anos de delicada poesia
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sexta-feira, 28 de julho de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
''Um anjo que desceu à terra disfarçado de homem''. Foi assim que o escritor Érico Veríssimo descreveu Mário Quintana (1906-1994) ao descobri-lo em Alegrete, a longínqua cidade natal do poeta cujo centenário será comemorado amanhã.
A efemérie será comemorada em várias cidades do País, de Porto Alegre a Manaus, passando por São Paulo onde diversos eventos estão programados para divulgar a obra do autor. Mestre em extrair lirismo das trivialidades cotidianas, Quintana foi um personagem solitário na capital gaúcha que adotou para viver.
A lembrança de muita gente é a de sua figura caminhando pelas praças com uma boina na cabeça e o inseparável cigarro. Nas tardes, adorava refugiar-se numa confeitaria do centro da cidade para saborear um quindin. Quando reconhecido nas ruas, procurava logo se livrar de admiradores inconvenientes. Não era esnobe, apenas detestava pararicação. Segundo muitos depoimentos, Quintana era a simplicidade em pessoa.
Durante 12 anos, morou no Hotel Majestic, que em 1989 se transformaria numa espaçosa Casa de Cultura com seu nome na placa. Começou a escrever ainda garoto, mas publicou seu primeiro livro quase aos 40 anos de idade. Além de exercer o ofício literário, trabalhou em redações de jornais e como tradutor de obras de clássicos como Marcel Proust, Virginia Woolf, André Gide, Voltaire, Joseph Conrad e Guy de Maupassant.
Mais tarde, intensificou a produção literária lançando um livro atrás de outro. Entre os títulos constam ''A Rua dos Cataventos'' (a estréia, de 1940), ''Poesias'', ''Sapato Florido'', ''Espelho Mágico'' e ''Pé de Pilão''. Este último tinha a criançada como público-alvo. Para elas, aliás, escreveu outros cinco volumes. O humor sutil, a melancolia e a busca da pureza nos sonhos de infância marcariam grande parte de seus poemas. Manuel Bandeira o definiu como o ''campeão da ternura''.
Acessível a todos os leitores, ele foi menosprezado pelos críticos. Só a partir de meados da década de 60, sua obra começou a ser valorizada mas não a ponto de sensibilizar a Academia Brasileira de Letras, para a qual candidatou-se três vezes em vão. Foi quando cunhou a frase: ''Todos esses que aqui estão atravancando o meu caminho, eles passarão e eu passarinho!''. Queria ser imortal na Academia. Virou imortal fora dela.


