Curitiba - Se durante um tempo o Brasil assistiu a arquitetura antiga desmoronar para ver novas e pausterizadas formas nascerem, agora essa fase não vigora mais. Em Curitiba o tempo é de mudança de hábito, ou melhor, de novo uso para antigos e maravilhosos casarões construídos no início do século passado. Se antes eles abrigavam festas de famílias poderosas e recebiam ministros, príncipes e chefes de Estado agora eles estão abrindo as portas para gerarem lucros. É a opulência dos velhos tempos se revestindo de modernidade para viver com louvor uma nova fase: a da sobrevivência através do encontro da tradição com a tecnologia.
Cerca de dois meses atrás foi anunciada a restauração e ''virada'' para um centro de eventos de uma dessas construções louváveis do passado. O Castelo do Batel, uma réplica dos castelos do Vale do Loire, na França, construído em 1924 pelo cafeicultor Luiz Guimarães, ganha recheio novo. Para o arquiteto responsável pelo restauro dos 2,2 mil metros quadrados (ao todo são 10,3 mil metros quadrados), Humberto Fogassa, um especialista nesse tipo de obra, a tendência do momento é fazer o encontro do velho com o novo. ''Temos importantes prédios antigos reciclados e adaptados para atender um modo novo. Essa possibilidade de reconstruir o velho só acontece graças à política de preservação do Brasil implantada no século 20''.
Em 1974 o Castelo do Batel foi tombado pelo Patrimônio Histórico. Nessa época já era de propriedade da família Lupion. Na verdade, a partir de 1947, a magnífica construção foi vendida para o ex-governador do Paraná, Moysés Lupion e passou a abrigar grandes eventos oficiais e receber hóspedes ilustres como os presidentes Juscelino Kubitschek, Eurico Gaspar Dutra, Jânio Quadros e João Goulart, o vice-presidente dos Estados Unidos Nelson Rockfeller, o Príncipe Oshio (sobrinho do Imperador do Japão), só para citar alguns. Como nada é para sempre a família arrendou o Castelo para a Rede Paranaense de Comunicação no mesmo ano em que foi tombado e em 2003 o prédio foi devolvido aos Lupion que resolveram então resgatar o glamour dos áureos tempos.
Um dos membros da família Lupion que repensou e entrou no mutirão de nova vida ao Castelo é Vera Amaral Lupion. Viúva do filho do ex-governador ela viu muitas das festas acontecerem lá. Quando a RPC devolveu o prédio, Vera foi uma das mais empolgadas com a idéia de reviver o passado. Ao todo foram 15 meses de resgate, pesquisa histórica e obras, hoje o Castelo já traz novas emoções à família. Recentemente abriu as portas com uma festa de arromba.
Era o casamento da filha de um dos maiores figurões do Estado. Vera adentrou os salões agora com ar-condicionado, luzes novas e uma área toda envidraçada e se emocionou. ''A sensação que eu tive foi de não poder conter as lágrimas.
Parece uma utopia, conseguimos aprimorar o que já era belo. Resgatar o glamour daqueles tempos'', conta.
Se o Castelo do Batel do passado tinha pratas, linhos e aparelhos sanitários, na sua maioria, comprados em Paris, do fabricante Jacob de Lafout, o de hoje exibe oito salas de reuniões com capacidade para até 60 pessoas, um salão de 650 metros, business center, acesso à Internet em todas as salas por meio do sistema wireless e espaço para estacionamento interno com 1,5 mil metros. Um ''up grade'' como diriam os grã-finos.
Outro prédio que recupera o charme do passado e ganha cara nova é o Palacete Leão Júnior. Construído pela família Leão ele simbolizava o desenvolvimento econômico e social na virada do século passado no Sul do país. Era o ciclo da erva-mate a todo vapor que erguia uma das mais belas construções de Curitiba na Avenida João Gualberto.
Pois bem agora o Casarão, que também foi tombado pelo patrimônio histórico, acaba de tornar-se a sede definitiva do Banco Regional BRDE no Paraná.
Avaliado em torno de R$ 6 milhões, o prédio foi adquirido numa operação de financiamento de 25 anos junto ao Instituto de Seguridade Social do BRDE (ISBRE ). Lá, além da parte velha totalmente restaurada, há um moderno prédio funcionando. Com isso duas grandes construções da cidade vivem um tempo bom, onde o que já era belo pode ser mantido com uma nova e lucrativa utilidade para o presente.

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