MEMÓRIA - Bergman e a expressão do silêncio
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terça-feira, 10 de julho de 2018
Rodrigo Grota<br> Especial para Folha 2 

Em seu livro "Notas sobre o Cinematógrafo", o realizador francês Robert Bresson (1901-1999) afirma que o cinema sonoro inventou o silêncio. Bresson, neste caso, não se referia apenas à ausência de sons, música ou diálogos. Essa dimensão silenciosa, para o cineasta, é sobretudo o que não pode ser visto. O cinema moderno seria, dessa forma, a expressão do não-visível, do não-tocável: o registro da vida interior.
Nenhum cineasta no século 20 aprimorou essa expressão do silêncio como o realizador sueco Ingmar Bergman (1918-2007). Nascido a 14 de julho de 1918 em Uppsala, diretor de cinema e de teatro, dramaturgo e escritor, Bergman dirigiu mais de 50 filmes e conquistou prêmios nos principais festivais europeus, obtendo também o reconhecimento pela Academia (Oscar) e da crítica internacional. No próximo sábado (14), em todo o mundo fãs e estudiosos irão homenagear o cineasta a partir de exibições, debates, palestras e lançamentos sempre com o foco direcionado para uma obra de difícil classificação.
Influenciado por dramaturgos como Shakespeare, Ibsen e, especialmente, Strindberg, do qual foi um grande leitor e encenador, Bergman criou filmes como quem escreve livros ou peças de câmara a serem executadas por uma pequena orquestra. Em sua obra para o cinema, há uma linguagem que se potencializa por incluir elementos ao mesmo tempo distintos e não excludentes. Se por um lado notamos a predileção pela palavra, pelos diálogos longos, pelos enquadramentos fechados em um rosto, pode-se ver também uma estrutura dramática similar a uma partitura musical, em que os atores se equivalem a instrumentos, todos conduzidos para a expressão de uma única voz a do autor.
Trata-se de um procedimento que poderíamos nomear como uma Estética do Desvio. Digo isso, pois, se a literatura é a arte da palavra, se o teatro é a arte do ator, e se o cinema é a arte da imagem, Bergman rompe com essas delimitações ao criar filmes que centram sua potência estética nessa tríade: a palavra, o ator e a imagem, como se a narrativa cinematográfica só pudesse ser apresentada em sua máxima potência justamente ao se contaminar de outras linguagens expressivas como a literatura, o teatro, a música e a pintura. O caminho correto, portanto, seria o desvio, a fuga que nos leva ao reencontro com o desconhecido o único possível para o diretor.
Mesmo com uma estética repleta de apropriações, no universo Bergmaniano o destaque sempre fica para o trabalho do ator, ao qual Bergman se dedica em todas as suas nuances: o controle mínimo da expressão corporal, a orquestração dos movimentos aparentemente invisíveis de cada rosto, a voz em sua exata tonalidade, e, por último, e não menos importante, o silêncio: aquilo que um ator apresenta ao público de forma indireta e sutil e que não se exprime apenas por palavras ou gestos. Esse domínio no registro do olhar, essa lenta e contínua aproximação de um universo íntimo e ao mesmo tempo doloroso, é a marca da cinematografia de Bergman. É como se estivéssemos diante de algo profundamente vivo e real, nos aproximando de um mistério que dificilmente é atingido pelo cinema.
Dreyer, Bresson e Ozu atingiram essa atmosfera oculta o roteirista norte-americano Paul Schrader os classifica como representantes de um cinema transcendental. Bergman também atinge essa transcendência, mas por meio de outra estratégia: por mais que o seu cinema seja vitalista e valorize as questões humanas, a impressão é de que estamos sempre a acompanhar espectros, corpos ocultos que se movimentam em uma outra dimensão, sob outro ritmo, regidos por uma nova lógica. Trata-se de um cinema que, assim como o de Buñuel, se assemelha a um sonho. No caso de Bergman, porém, essa abordagem onírica se apresenta mais como um pesadelo como se o cineasta estivesse sempre a reafirmar Kafka: "existe esperança, esperança infinita, mas não para nós".

Maratona de filmes
Em homenagem aos 100 anos de Ingmar Bergman, o Telecine Cult vai realizar no sábado (14) uma maratona de filmes do cineasta a partir das 12h45. Serão mais de doze horas de filmes com a exibição de títulos consagrados como "O Ovo da Serpente", "Fanny & Alexander", "O Sétimo Selo", "Sonata de Outono", "Quando Duas Mulheres Pecam" e "Morangos Silvestres" , entre outros.


