MEMÓRIA - Araci de Almeida em prosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de abril de 2004
Beatriz Coelho Silva<br> Agência Estado 
O poeta e produtor cultural Hermínio Belo de Carvalho andou sentindo saudade da cantora Araci de Almeida, uma das principais intérpretes de Noel Rosa e sua grande amiga do fim dos anos 50 até morrer, em 1988. Por isso, escreveu ''Araca - A Arquiduquesa do Encantado'' (R$ 20,00), um carinhoso perfil. ''Eu me dei este presente porque em 2004 se completam 90 anos de seu nascimento, mas não consegui liberar nas gravadoras músicas para um CD, nem imagens de programas que fiz com ela para um DVD'', conta. ''Não é uma biografia porque não sou pesquisador. É um testemunho da sua história por quem ela autorizou a contar.''
A Araci que ele nos mostra é uma sofisticada cantora, que anarquizava as formalidades, mas sabia do valor da música brasileira e seu papel dentro dela. Uma intelectual que lia Schopenhauer e os existencialistas franceses e falava gírias e palavrões que poucos tinham coragem de pronunciar. Uma colecionadora de arte moderna brasileira (Di Cavalcanti a presenteava com quadros), mas enchia a casa de quinquilharias e orgulhava-se de produzir enfeites natalinos. ''Acima de tudo, era uma amiga carinhosíssima, uma cantora de timbre raro e com inteligência ímpar para escolher e interpretar seu repertório'', declara Hermínio. ''Quando ela canta 'Fez Bobagem', de Assis Valente, a gente sente o desespero da mulher traída.''
Araci foi uma cantora e uma personagem à parte. Nascida em 1914, no Encantado, um bairro quase rural da zona norte carioca, nunca saiu de lá, mesmo quando era ídolo do rádio, entre os anos 30 e 60, a época de ouro da música brasileira. Lançou clássicos de Noel Rosa (''Palpite Infeliz'', ''O X do Problema'', ''Fita Amarela'', etc.) e, após a morte dele, mesmo marcada como sua intérprete, gravou versões definitivas de músicas de Ary Barroso (''Camisa Amarela''), Babaú e Cyro de Souza (''Tenha Pena de Mim''), Haroldo Barbosa (''Não se Aprende na Escola'') e até Caetano Veloso (''A Voz do Morto''), num tempo em que os baianos homenageavam Paulinho da Viola.
A televisão e a Bossa Nova restringiram seu campo de trabalho e de outras cantoras de voz grande (a dela era grave, rouca e profunda), interpretação sentida e beleza incomum. Araci nem tentou enquadrar-se, como conta Hermínio. E, mesmo sem fazer média, era adorada pelos ídolos dos anos 60, como Nara Leão, Chico Buarque ou o já citado Paulinho. ''O problema é que, para sobreviver, ela se tornou jurada de programas de calouro e criou a personagem mal-humorada, que funcionava, mas não era ela'', conta Hermínio. ''Este livro mostra essa face e, por isso, é tão grave não ter um CD ou um DVD para mostrá-la à juventude de hoje, que gosta de samba, mas não ouviu falar de Araci ou só sabe da jurada de Silvio Santos.''
Hermínio tem razão. Embora tenha gravado mais de 200 músicas, como atesta a discografia do livro, levantada por Paulo César Andrade, há poucos discos dela no mercado. O selo Revivendo lançou algumas gravações em coletâneas nos anos 90 e a Continental editou dois CDs na série Mestres da Música, dos quais saiu um terceiro, na coleção Enciclopédia da Música Brasileira. Mas não os encontramos facilmente, embora seu repertório seja a base de toda roda de samba e o público, dos 8 aos 80, se cale quando tem a (rara) oportunidade de ouvi-la.
A biografia definitiva de Araci ainda está por vir e Hermínio não vai deixar o pesquisador Sérgio Cabral quieto enquanto tal livro não existir, como conta no prefácio o biógrafo de Nara Leão, Pixinguinha, Elizeth Cardoso e Tom Jobim. Hermínio está envolvido em outros projetos, alguns a longo prazo, como o Instituto Jacob do Bandolim e a Escola Portátil de Música, e outros a curto, como o livro de sua correspondência com o poeta Carlos Drummond de Andrade, a exemplo do que tem as cartas que trocou com o modernista Mário de Andrade. ''Eu só tinha as que recebi de Drummond, embora faltem umas poucas, e as que mandei para ele estão na Casa de Ruy Barbosa'', adianta. ''Quero também contar histórias paralelas bem interessantes.''
Excepcionalmente hoje deixamos de publicar a coluna Leitura, de Marcos Losnak


