MEMÓRIA - Aquelas tardes de domingo...
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sábado, 20 de agosto de 2005
Alexandre Coelho<br> TV Press 
Roberto Carlos entrou no palco do auditório da TV Record, em São Paulo, chegou ao microfone, pôs a mão no peito, esticou o braço, em seu gesto característico, e bradou: ''O meu amigo, Erasmo Carlos!''. Eram 16h30 de um domingo, 22 de agosto de 1965. Ali, tinha início mais que um programa de televisão. Para muitos, o programa ''Jovem Guarda '', que neste mês completa 40 anos, foi o símbolo de uma era. Exibido ao vivo, sintetizou não apenas uma época, mas os anseios de uma geração pré-1968, quando cantar coisas ingênuas, como o sonho de um carrão e a namoradinha da escola, ainda não era ''careta''. ''O programa atingia todo tipo de público, desde os jovens até crianças'', recorda Roberto Carlos, líder natural daquela ''turma''.
Programas de auditório direcionados para um público jovem não eram novidade em meados da década de 60. Desde 1962, outras produções semelhantes já apontavam uma tendência de sucesso. Era o caso de ''Festival da Juventude'', da TV Excelsior, líder de audiência até então. Mas, em 1965, a TV Record perdeu o direito de transmitir ao vivo as partidas do campeonato paulista de futebol. Seguindo a moda do momento, a emissora decidiu apostar na ''garotada''. E acabou fazendo um ''golaço''. ''Foi uma surpresa geral para todo mundo, porque já no primeiro programa o auditório estava lotado, e depois ninguém conseguia ingresso, já tinha lotação para seis meses'', conta Erasmo Carlos, eterno parceiro do ''rei''.
A escolha dos apresentadores foi simples. Roberto e Erasmo já formavam uma dupla em ascensão. O primeiro estava em todas as paradas com o sucesso ''Calhambeque'', do álbum ''É proibido fumar''. Erasmo, por sua vez, também havia ''estourado'' com a sua ''Festa de Arromba''. Para completar o naipe de apresentadores, faltava uma menina. Pensou-se, inicialmente, em Celly Campelo, uma das precursoras do rock no Brasil, que não aceitou. Depois, foi cogitado o nome de Rosemary, idéia abandonada pelo fato de a cantora ser muito associada à música romântica. Por fim, o consenso: foi chamada Wanderléa. A ''Ternurinha'', como já era conhecida na época, apesar das diferenças por ela mesmo destacadas, estava mais afinada com as propostas estéticas daquele grupo. ''Não foi um movimento pré-concebido, foi uma coisa muito solta. Cada um atuou no programa de uma forma muito individual, da sua própria maneira'', observa ela.
A beatlemania britânica, àquela altura, já havia chegado aos Estados Unidos. E o culto à Jovem Guarda, que surgiu no Brasil da década de 60, foi o paralelo inevitável ao fenômeno mundial dos Beatles. Para Ricardo Pugialli, pesquisador do tema e autor do livro ''No Embalo da Jovem Guarda'', a geração de Roberto, Erasmo e Wanderléa é, apesar de tudo o que representou, bastante subestimada. ''Eles viraram os Beatles brasileiros da noite para o dia. Quem não viveu aquilo não consegue imaginar. Foi, indiscutivelmente, o maior fenômeno de massa do Brasil'', garante.
A fórmula, de fato, tinha tudo para dar certo. Três jovens talentosos e carismáticos, no auge criativo, sintonizados com seu público, ciceroneando outros artistas em um programa ao vivo. Apesar do aparato técnico limitado e da escassez de recursos o cenário, por exemplo, era composto por quadros de ''calhambeques'' a febre em torno da Jovem Guarda em nada ficou a dever à beatlemania original. A ponto de o ''rei'' se ver encurralado por fãs histéricas dispostas a tudo por uma ''lembrancinha''. ''O assédio era muito grande. Tive a roupa rasgada duas vezes. Em uma delas, levaram a camisa e me deixaram só com a manga'', revive Roberto.
Mas o mundo mudou e, assim como aconteceu com a ''beatlemania'' original, o sonho acabou. No início de 1968, Roberto Carlos deixou o programa, que ainda duraria até a metade daquele ano. Para celebrar os 40 anos do ''Jovem Guarda'', a Rede Record promete exibir, aamanhã, um show recém-gravado com artistas que participaram do programa, além de um ''Repórter Record'' sobre o tema.


