MEMÓRIA - Aquelas canções do Roberto
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de janeiro de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Sobre o presente pairam carregadas nuvens, dolorosas crises pessoais e, sobretudo, fortes sinais de lassidão estética. Mesmo alquebrado, o rei mantém a majestade. Não como naquelas tardes de guitarras, sonhos e emoções quando ele protagonizou um dos movimentos musicais mais importantes do Brasil, a Jovem Guarda. Que refez andamentos de canções e imprimiu-lhes um inevitável sopro pop. E o que restou daquilo tudo? Recordações e também muitas releituras por parte da atual geração pop-rock brazuca principalmente hits da Jovem Guarda, ou alguém imagina os Titãs cantando ''Cheirosa'', Marisa Monte interpretando ''O Grude'' ou mesmo Skank entoando ''Mulher de 40''? Pois é!
A explicação mais plausível para a longevidade manuntenção, talvez da trajetória artística de Roberto Carlos está diretamente associada ao seu glorioso passado. Num passado, diga-se, longínquo em que brotos, monoquinis, splish-splash, papo-firme, cabeludo e outros termos em desuso eram uma brasa, tá ligado? O início de tudo isso já está disponível nas lojas. Trata-se do primeiro box da coleção ''Pra Sempre'' que traz os discos gravados entre na década de 60. O lançamento é da Sony Music. A remasterização ficou a cargo de Guto Graça Mello em preciosa parceria com o jornalista e pesquisador Marcelo Fróes.
A primeira caixa traz 96 canções registradas em oito discos (entre 1963 e 1969) e provavelmente terá maior convergência de atenções por conter a gênese da arte de Roberto Carlos. Lá estão, por exemplo, clássicos como ''Parei na Contramão'' (1963); ''É Proibido Fumar'' e ''O Calhambeque'' (ambas de 1964); ''Não Quero Ver Você Triste'' e ''Aquele Beijo que Te Dei'' (de 1965) ''Que Vá Tudo Pro Inferno'', ''Gosto do Jeitinho Dela'', ''Mexerico da Candinha'' (todas de 1965); ''Eu Te Darei o Céu'', ''Querem Acabar Comigo'', ''Negro Gato'', ''É Papo Firme'' (de 1966); ''Eu Sou Terrível'', '' Por Isso Corro Demais'', ''De Que Vale Tudo Isso'' (1967); ''Se Você Pensa'', ''É Meu É Meu É Meu'' (1968); ''As Flores do Jardim da Nossa Casa'', ''Sua Estupidez'', ''As Curvas da Estrada de Santos'' (1969).
O mais bacana de tudo é que entre hits encontram-se canções ofuscadas, mas que ainda povoam o inconsciente coletivo entre elas, a valsinha ''Oh! Meu Imenso Amor'' (numa irreverente gravação de Roberto), ''Broto do Jacaré'', ''Aquele Beijo que Te Dei'', ''Um Leão Está Solto Nas Ruas'', só para citar algumas.
O trabalho empreendido por Guto Graça Mello e Marcelo Fróes foi além de uma simples maquiagem sonora. ''Os discos mais antigos, dos anos 60, foram gravados em três canais e a mixagem colocava a voz por cima do baixo e da bateria, no centro do estéreo. A remasterização cuidou de realçar melhor a voz do Roberto e também os graves, já que o baixo era um dos instrumentos mais sacrificados nessas mixagens antigas'', explica Marcelo Fróes.
Além da remasterização, os discos trazem reproduções de capas, contracapas (num belo trabalho gráfico), além de datas de gravações e lançamentos. A ficha técnica (engenheiros de gravação, estúdios, músicos, etc) mereceu uma atenção especial.''Nas fitas matrizes das sessões, todas em ótimo estado, eu encontrei as datas e os nomes dos engenheiros de som. O produtor sempre foi Evandro Ribeiro. As bandas acompanhantes foram elucidadas com Roberto Carlos e pessoas próximas, além de músicos que tocaram com ele na época'', disse Marcelo Fróes.
Segundo ele, Roberto não fez pedidos ou exigências maiores para a aprovação do projeto.''Ele supervisionou as remasterizações, aprovou toda a parte gráfica, fez algumas observações pertinentes'', informa sem detalhar quais seriam as observações. O start no projeto ''Pra Sempre'' foi no início do segundo semestre de 2004 e os trabalhos ainda continuam.
Os outros quatro boxes deverão ser lançados, de acordo com a assessoria de imprensa da Sonny, em 2005, obedecendo ao seguinte cronograma: março (anos 70), junho (anos 80), setembro (anos 90 e 2000) e dezembro (só com discos feitos para o mercado internacional). Por enquanto, ou pelo menos até que Roberto autorize, apenas um disco deverá ficar de fora do projeto: o raríssimo Lp ''Louco Por Você'', gravado em 1961, em que Roberto Carlos cantava basicamente... boleros!
Mais que uma empreitada de fôlego, a primeira caixa da coleção ''Pra Sempre'' serve principalmente como reflexão sobre os rumos que Roberto Carlos deu em sua carreira. A transição do rock para o romantismo (o que se evidencia principalmente no disco de 1969) foi natural e sem traumas. Mas o fato é que desde os anos 90 Roberto Carlos apenas e só permanece como o mitológico monarca da MPB, porém sem maiores laivos de criatividade. Não se vive de passado, é fato. Mas no caso de Roberto, o passado ainda é uma brasa, mora?!
Serviço
- Coleção ''Pra Sempre - Anos 60'', com oito discos de Roberto Carlos lançados originalmente entre 1963 e 1969. Lançamentop Sony. Preço sugerido: R$ 230,00. Mais informações: www.sonymusic.com.br


