O enigmático silêncio de Rimbaud atravessa séculos. Desde que jogou a caneta fora aos 20 anos, o poeta tem sido alvo de incontáveis biógrafos e exegetas, dos mais sóbrios aos abusivamente mexeriqueiros. Herdeiro dos românticos radicais, ele escandalizou o mundo literário de sua época com a genialidade explosiva de seus versos.
Manipulador de imagens, violentou as tradições do ritmo e da rima inventando a poesia moderna. Precoce, construiu a obra na adolescência para abandoná-la sem explicações em troca de aventuras mundanas nos desertos africanos. O manifesto ''Carta do Vidente'', redigido para um amigo, tornou-se fonte de inspiração para quase tudo de importante que surgiu depois na literatura ocidental.
É seu projeto estético, seu programa de intenções, mais tarde catalogado como um embrião do surrealismo. ''O poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas do amor, de sofrimento, de loucura: ele procura a si próprio, esgota em si todos os venenos para guardar apenas a quintessência'' proclama ele, não sem antes atacar toda a produção poética francesa da época como ''prosa rimada, um jogo, amolecimento e glória de inumeráveis gerações idiotas''.
Na ocasião, Rimbaud tinha 17 anos. Morava com a mãe em Charleville, uma bucólica cidade ao nordeste da França. Menino fujão, ele sumia de casa e voltava exausto dias depois, após longas caminhadas. Entre as lendas criadas em torno de sua figura intratável consta que foi expulso de um café (singelamente chamado ''Rato Morto'') ao ''pintar'' uma mesa com seus excrementos.
Em vida, publicou apenas o livro ''Uma Estação no Inferno (Une Saison en Enfer)'', custeado pela mãe. Após sua morte, toda sua produção poética veio à tona. No Brasil, além da obra citada acima, saíram entre outras traduções de suas poesias completas (por Ivo Barroso e publicadas pela Top Books), além das correspondências (na coleção ''Rebeldes & Malditos'' na editora gaúcha L&PM) e dos volumes ''Rimbaud Livre'' (de Augusto de Campos, pela editora Perspectiva) e ''Illuminations'' em traduções de Lêdo Ivo (pela Francisco Alves) e dos londrinenses Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça (pela Iluminuras).
Puxado para a direita ou esquerda ao sabor de seus estudiosos, Rimbaud influenciou surrealistas, beats, Artaud, Bob Dylan, Jim Morrison, Patti Smith e até a rebelião de Maio de 68. Durante quatro anos, manteve uma relação turbulenta com o poeta Paul Verlaine, que largou mulher e um filho recém-nascido para ficar a seu lado. Ambos de pavio curto, viviam trocando sopapos em público.
Certa vez, numa estação de trem, Verlaine sacou de um revólver disparando dois tiros no amante. Rimbaud escapou da morte, fez a mala e vazou para a Abissínia (hoje Etiópia) onde virou andarilho e comerciante. Negociou peles, marfim, incenso, tabaco e até armas numa busca desenfreada pela fortuna. Viajou à frente de caravanas, tendo sob suas ordens dezenas de cameleiros em regiões cada vez mais distantes da civilização ocidental.
Nunca escreveu mais nada. Renegou os versos do passado recusando-se a falar de poesia ou literatura transformando-se no enigma mais desafiador da literatura mundial. Na África, contraiu sífilis e foi obrigado a amputar uma perna. Morreu em 1891, logo após retornar à França, sendo enterrado na presença apenas da mãe e da irmã. Tinha 37 anos. Nascia aí o mito, o autor póstumo cuja vida vertiginosa e intrigante esteve à altura da revolução que provocou na poesia.

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