MEMÓRIA - A dama do mal
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quarta-feira, 21 de agosto de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
A mais polêmica cineasta de todos os tempos está na ativa ao completar 100 anos hoje. A cineasta e fotógrafa alemã Leni Riefenstahl, a deusa imperfeita, entrou para a história ao se ligar a Adolf Hitler e produzir duas grandes obras cinematográficas que faziam apologia ao nazismo. ''O Triunfo da Vontade'', relato de um congresso nazista em Nuremberg, e ''Olympia'', filme oficial da Olimpíada de 1938.
O primeiro retratava em imagens o Partido Nacional Socialista alemão. Documento ou propaganda, o filme mostra imagens impactantes com ordem unida, disciplina, espírito militar, duplicados pelas manifestações de massa de apoio ao regime. A cineasta chegou a Nuremberg com uma equipe que incluía 57 cinegrafistas. Queria autonomia completa e até notificava Hitler quando ocorria qualquer interferência que se julgasse vítima.
Em ''Olympia'', Riefenstahl faz um elogio da cultura física. Chegou a utilizar 400 km de película para documentar os feitos dos atletas e a beleza de seus corpos, que correspondia à perfeição aos ideais higiênicos do Terceiro Reich. As inovações dos enquadramentos e movimentação de câmera são utilizados até hoje nas coberturas de jogos esportivos. Sem dúvida, Leni Riefenstahl foi a pessoa mais apta a transformar em imagens a Alemanha nazista. Uma pioneira do feminismo ou mulher diabólica?
Até hoje a cineasta jura que desconhecia o que estava acontecendo na Alemanha, das queimas dos livros em praça pública e do extermínio dos judeus. Mas no filme ''Tiefland'', em 1940, usou ciganos retirados de campos de concentração como extras.
O escritor alemão Reiner Rother disse em seu livro ''A Sedução do Talento'', que analisa a função das imagens da cineasta alemã, que não é possível negar que ''Olympia'' e ''O Triunfo da Vontade'' sejam hoje a mais refinada auto-representação da ideologia nazista.
No pós-guerra, imaginava-se que a câmera em suas mãos se transformasse em uma arma até perigosa. Apesar de nunca ter se filiado ao Partido, foi julgada e considerada simpatizante do nazismo.
Nascida em Berlim em 1902, Helene Amalia Bertha Riefenstahl começou a vida artística como bailarina. Após sofrer um acidente, batalhou para entrar no mundo cinematográfico. Com cenas que desafiavam seus limites físicos, logo nos primeiros filmes impressionou. Enquanto Marlene Dietrich se transferiu para Hollywood, Leni começou a filmar para Hitler. Meticulosa, perfeccionista, fazia testes incansáveis até começar a filmar.
''No início eu o achava (Hitler) uma pessoa modesta, introvertida, correto, natural. Ele irradiava alguma coisa muito forte, irradiava algo hipnótico'', afirmou no documentário ''A Deusa Imperfeita'', de Ray Muller. Hitler por sua vez solicitou: ''Dê-me seis dias de sua vida. Só seis. Quero que esse filme (O Triunfo da Vontade) seja feito por uma artista''. A cineasta passou cinco meses na ilha de edição para suprir seu espírito perfeccionista.
Foi para o Sudão viver com nativos e até lançou livros sobre a trio nuba, que visitava sucessivamente, sempre buscando a perfeição estética do físico. Depois de se tornar a mergulhadora mais idosa do planeta (ainda aos 90 anos mergulhava), publica livros de fotos submarinas. Aos 60 anos, conheceu Horst Kettner, um jovem de 20 anos. Se casaram e ele é até hoje um companheiro inseparável e dedicado.
Nos últimos dois anos, depois do lançamento editorial do livro ''Cinco Vidas'' (uma autobiografia visual) e relativo sucesso comercial, a artista talentosa está prevalecendo sobre a de cúmplice do horror nazista. Enquanto estava no centro do vórtice, uma das questões suscitadas era se a estética deve ser julgada fora da ética e do contexto ideológico em que foi gerada. Protestos contra sua aparição pública hoje até parecem improváveis.
Seu último trabalho, um documentário de 2002, diz respeito ao mundo submarino, ao qual se dedicou nos últimos anos. Já está em andamento um projeto para filmar sua vida, do qual participa Jodie Foster.


