MEMÓRIA - 25 anos sem Hitchcock
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quinta-feira, 28 de abril de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
É muito conveniente, neste momento em que se recorda Alfred Hitchcock, que esteja simultaneamente em exibição na cidade e nas salas do mundo o thriller de suspense 'A Intérprete'. Com o respeito e a simpatia que merece o sempre correto Sidney Pollack, fica-se a imaginar, no entanto, o que não teria feito com este material o rotundo, mordaz e maquiavélico diretor de títulos capitais para um gênero cada vez mais degradado pela ditadura da tecnologia que suga a alma da imaginação, tanto a de quem realiza como a de quem consome.
Sim, porque ''há alguma coisa mais importante que a lógica: a imaginação'', dizia o mestre. Imaginação febril que começou a trabalhar muito cedo, logo aos 5 anos de idade, no início do século passado, por conta de um fato aterrorizante que abriria as portas da imaginação sinistra do diretor inglês. O menino gordinho chega a uma delegacia policial levando uma carta. Minutos antes, o pai, rico industrial católico, tinha ordenado que o garoto apresentasse o documento naquele lugar. Ali, o comissário lê a carta e imediatamente prende o pequeno numa cela, dizendo: ''Isto é o que fazemos com meninos maus''. Cinco minutos depois da 'brincadeira', o menino Alfred é solto. Mas marcado pelo resto da vida, como diria sessenta anos mais tarde ao crítico e diretor François Truffaut na histórica entrevista que virou o best-seller 'O Cinema Segundo Hitchcock'.
Ao longo de notável carreira feita de antológicos títulos que começam ainda no período mudo, aparecem o mal, a culpa, o pecado, o castigo, a inocência, o arrependimento e o peso da consciência. Toda essa carga que tão magistralmente iluminou de luz e sombra sua obra parece ter sido incubada durante os anos da educação jesuíta. O medo e a capacidade de gerar mistério a partir de um copo de leite ('Suspeita', 1941), ou o paroxismo da repressão sexual de um homem ansioso de transformar uma mulher em sua amante morta ('Um Corpo que Cai').
Depois de um período de criação inicial em Londres, quando a crítica o saúda como 'um jovem com cérebro de mestre', os anos 1940 encontram Hitchcock com Hollywood a seus pés. E os Estados Unidos fascinados com as teorias psicanalíticas de Freud e Jung. Neste tempo, o engenhoso diretor já tinha muito claro que a chave de sua construção - seu estilo - consistia em narrar em imagens. Nada de diálogos redundantes. Só algumas informações, para aferrolhar o espectador à poltrona. Uma imagem, a posição da câmera ou um som desconcertante. Esta a fórmula vitoriosa, plasmada em cerca de trinta títulos fundamentais, de 'Rebecca'(1940) ao derradeiro 'Trama Macabra'(1976), passando por 'Janela Indiscreta'(1954), 'O Homem que Sabia Demais'(1956), 'O Homem Errado'(1958) e 'Os Pássaros' (1964), entre outros de igual valor.
E onde mais estaria o protótipo desta invenção singular, se não em 'Psicose'(1960), filme quase cinquenta por cento mudo? Hitch, que aqui se orgulhava por ter dirigido antes o espectador e só então os atores, dedicou-se durante sete dias - colocando a câmera em 70 posições diferentes - para filmar os 40 segundos do assassinato no chuveiro. Sua fórmula pura. ''Minha satisfação é que o filme envolveu o público, e era o que mais me interessava.''
Não interessa hoje, há 25 anos de sua morte, compilar detalhados dados biográficos ou listar dados, anedotas ou mitos associados a seu nome - o fraco por ruivas frias na aparência mas vulcões em latência, a parceria com o músico Bernard Herrmann, a aparição fugaz nos filmes que dirigiu. Como homenagem a este gênio a quem a Academia nunca deu um Oscar como melhor diretor, parece mais apropriado que seus filmes continuam a falar por ele.


