O Teatro Guaíra, em Curitiba, sacudiu no último final de semana. A maratona musical promovida pelo Circuito Cultural Banco do Brasil trouxe quatro personalidades totalmente diferentes, mostrando a força da música brasileira. Ana Carolina, Arnaldo Antunes, Rita Ribeiro e Zé Ramalho fizeram shows memoráveis.
Na noite de sexta-feira, a mineira Ana Carolina abriu seu show com um ritmo pesado que, de cara, animou um Guaíra lotado. Ana é roqueira, blueseira, tem uma voz fortíssima e uma personalidade condizente. É meio Cássia Eller, meio Angela Ro Ro, mas com uma roupagem nova, bem-humorada. Deu seu recado em grandes interpretações como nas inéditas ‘‘Voz e Violão’’ e ‘‘Joana’’ e mostrou ser uma grande panderista, deixando o povo boquiaberto. Fim do show. Intervalo.
Começa Arnaldo Antunes. O ex-Titãs, o compositor de músicas da boa fase de Marisa Monte, o poeta concretista, o louco. Arnaldo Antunes é tudo isso e mais um pouco. É um grande performer. Um artista maduro que traduz no palco essa experiência agitando o seu fiel público. É um astro que comunga, quer seus fãs junto fisicamente. Mandou o povo chegar mais perto, deixando a segurança do Guaíra de cabelo em pé – ele não sabia que embaixo daquela ‘‘pista de dança que separa a gente’’ havia o fosso da orquestra. Quando ficou sabendo do perigo, pediu para segurarem a energia, mostrando que a sua atitude de loucura fica somente restrita ao campo das idéias. Arnaldo Antunes pode não vender milhões de discos, pode não ser idolatrado por uma multidão de fãs. Mas quem se identifica com o que ele faz, jamais deixará de respirar aliviado por ainda existirem caras como ele: que estão comprometidos com suas idéias e nada mais.
Rita Ribeiro estreou em Curitiba em noite de gala. Com os ingressos lotados há mais de uma semana, a cantora teve a chance de mostrar ao exigente público o seu trabalho cheio de sonoridades (balada, funk, pontos de umbanda e por aí vai). Encantou de cara. Cuidadosa, a maranhense que começa a despontar como um dos grandes nomes da MPB, trouxe uma banda de primeira, um figurino bem elaborado e mandou ver com sua diversidade musical. À tarde, em entrevista, Rita dissera que no Maranhão escutava muita música caribenha. As ondas AM chegaram lá e influenciaram na música que o Guaíra ouviu sábado à noite. Além disso músicas de Zeca baleiro, seu grande parceiro, como ‘‘Lenha’’ fizeram a empatia entre público e artista. Rita ganhou o público e abriu a noite para o tão esperado Zé Ramalho da Paraíba (é assim que era chamado no ínicio de sua carreira).
Zé Ramalho é underground, hoje é um astro, mas continua com ar de vampiro, não se mistura, é mítico. Chega ao backstage do Teatro Guaíra, amparado por dois seguranças, não usa o camarim destinado para ele, vai direto para o palco. Ao fundo, um fã grita ‘‘Zé Ramalho da Paraíba’’. O astro pára, olha para trás. O fã diz ‘‘vá com Deus’’ – Ramalho acena e vai para o palco. Começa o show. Ele primeiro toca músicas de seu novo disco. O público delira. Continua como se estivesse em um outro plano, virou um ídolo, uma cara que batalhou anos e agora é reverenciado pela mídia e pelos milhares de fãs. Quando tocou seus grandes sucessos, como ‘‘Admirável Gado Novo’’, o público já estava possuído – não havia mais ninguém sentado, o ar comportado do Guaíra cedeu espaço para uma multidão extasiada com a apresentação de um cara que já foi maldito e, hoje, é reverenciado como um deus.

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