Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Se você viu ‘‘Beleza Americana’’ e gostou mesmo sem saber bem porque, e se considera um tanto estranha a dramaturgia de Almodóvar e Fassbinder, então prepare-se para conhecer os mandamentos seguidos com sucesso por estas e outras cabeças privilegiadas do cinema contemporâneo. A partir de hoje, e pelos próximos 10 dias, sempre às 22 horas, o canal por assinatura Telecine 5 estará oferecendo um banquete onde o prato principal é o melodrama americano, com a grife de um ‘‘chef’’ sempre imitado mas nunca igualado, o dinamarquês Claus Detlef Sierck, aliás Mr. Douglas Sirk. O ciclo comemora o centenário de nascimento do diretor que, na Hollywood dos anos 50, marcaria para sempre um gênero e se tornaria crítico implacável do materialismo americano do pós-guerra.
A princípio ridicularizados e desprezados pela crítica, os filmes de Sirk passaram por um reexame nos anos 70 e ganharam justo reconhecimento. A rigor uma combinação de ‘‘melos’’(música) e drama, o melodrama acabou designando, por ampla liberalidade, um gênero criado em torno de uma fórmula: homem ou mulher, individualmente, ou um casal, vitimizados por circunstâncias sociais repressivas. Na forma, outra característica do melodrama foi sempre a utilização totalmente artificial, visualmente estilizada de cenários, em estúdio, com predomínio quase absoluto de paisagens externas obviamente ‘‘fake’’. E os atores dançavam neste mesmo compasso, da mesma forma artificiais como fotos posadas para fã-clubes, dizendo clichês de romance barato. Sirk nunca fez casting por acaso: um dos prazeres adicionais de ‘‘Palavras ao Vento’’ é a maneira com que ele exagera as naturais qualidades de seus atores – Rock Hudson, Robert Stack, Dorothy Malone (Oscar de coadjuvante) e Lauren Bacall – e como ele os direciona para a ironia.
Realismo visual, de resto, nunca foi preocupação do gênero, que usou e abusou de técnicas variadas para lembrar sempre a platéia que elas não eram reais. Nos filmes de Sirk, lá estão com frequência, alternados, ângulos de câmera ou muito altos ou muito baixos. Objetos e móveis de cena, não raro separando fisicamente personagens, iluminação sempre artificial – convenções para acentuar o universo artificial e colocar os problemas sociais no foco da atenção do espectador.
Entre a dezena de títulos deste ciclo temático do Telecine 5, alguns ficaram mais famosos. E referenciais. ‘‘Palavras ao Vento’’, de 57, é sobre saúde, alcoolismo, ninfomania, impotência, suicídio e velados elementos de incesto e homossexualismo. Para um filme feito há quatro décadas, não é preciso dizer mais. E não é exagero afirmar que, para apreciar em sua totalidade um filme como ‘‘Written on the Wind’’, é preciso um grau a mais de sofisticação do que diante de uma obra-prima de Bergman. Os temas do mestre sueco – que a propósito anda considerando seriamente a possibilidade de se suicidar – são visíveis e enfatizados, ao passo que em Sirk o estilo oculta a mensagem.
O cineasta, que passou seus primeiros 37 anos na Alemanha, onde fez direção teatral adaptando clássicos, chegou a Hollywood no início dos 40. A reputação veio quando começou a trabalhar para a Universal: além dos melodramas, Sirk também fez westerns, musicais e filmes de guerra, escalando com mais frequência seu ator-fetiche, Rock Hudson – talvez apreciando a forma como Hudson escondia a homossexualidade, atuando sutilmente para subverter os personagens bem-nascidos que frequentemente interpretava. O ator está em cinco dos dez filmes da programação que começa hoje.


PROGRAMAÇÃO
Confira os filmes do ciclo Douglas Sirk que vai ao ar de hoje ao dia 19, às 22 horas, no Telecine 5
- ‘‘Palavras ao Vento’’ (Written on the Wind, 57)
- ‘‘Sinfonia Prateada’’(Has Anybody Seen My Gal?,52)
- ‘‘Chamas que Não se Apagam’’ (There’s Always Tomorrow, 56)
- ‘‘Herança Sagrada’’ (Taza, Son of Cochise, 54)
- ‘‘Mulher de Fogo’’ (Take me To Town, 53)
- ‘‘Tudo o Que o Céu Permite’’(All That Heaven Allows, 55)
- ‘‘Desejo Atroz’’(All of Desire, 53)
- ‘‘Almas Maculadas’’(The Tarnished Angels, 57)
- ‘‘Amar e Morrer’’(A Time to Love and a Time to Die, 58)
- ‘‘Imitação da Vida’’( Imitation of Life, 59)

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