Melodrama é um dos destaques da Mostra de Cinema de SP
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segunda-feira, 18 de outubro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 19 (AE) - Arturo Ripstein tinha 19 anos quando leu "Ninguém Escreve ao Coronel". Passando à direção, decidiu que seu primeiro filme seria a adaptação da novela de Gabriel García Márquez. Tentou adquirir os direitos, mas o escritor lhe disse que só os cederia "de graça" quando Ripstein aprendesse a filmar. Em 1997, os dois se encontraram como jurados no Festival de Cartagena. García Márquez perguntou se ele ainda queria filmar o "Coronel". Ripstein jura que até tinha esquecido do projeto, mas, como diz, "não se recusa um original de um Prêmio Nobel". "Ninguém Escreve ao Coronel" foi o único representante latino-americano no Festival de Cannes deste ano. O filme é uma das atrações de amanhã (120) da mostra. Passa às 15h05 no Cinearte 1.
Em Cannes, o cineasta riu muito quando a reportagem lhe disse que a oferta de García Márquez era a confirmação de que ele, realmente, aprendeu a filmar. Ripstein é um dos grandes do cinema latino-americano na atualidade. Faz a releitura crítica (e desmistificadora) de uma das vertentes tradicionais do cinema da América Latina, o melodrama. Quando pensou em filmar o "Coronel" pela primeira vez ("Era jovem e arrogante naquela época", diz Ripstein), o que o atraiu foi o desespero dos personagens, a sua falta de saídas ou perspectivas. Quando fez a releitura do livro com sua mulher e roteirista, Paz Alicia Garcíadiego, Ripstein descobriu outro tema. O que virou seu material dramático foi a história de amor entre os dois velhos.
Dois feios (um careca e uma gorda) em "Vermelho Sangue", dois velhos em "Ninguém Escreve ao Coronel". As histórias de amor de Ripstein não seguem o figurino tradicional. Mas ele não justifica assim suas escolhas de personagens. Não os seleciona por serem diferentes, mas por serem sobreviventes. É o tema do seu cinema: a dura luta das pessoas para sobreviver num mundo hostil. Uma história de amor, sim, mas nada de um melodrama clássico. Quem leu o livro de García Márquez (uma brochura de menos de cem páginas) sabe do que se trata: um casal de velhos amargurado porque perdeu o filho, um homem que espera uma carta há 27 anos.
Uma carta que não chega, sobre uma aposentadoria que não se efetiva, o que faz com que os velhos sobrevivam na penúria. O velho, motivo de chacota na cidadezinha por suas idas constantes ao prédio do correio, degrada-se física, mas não moralmente. Foi o que Ripstein tentou mostrar no seu filme. Por meio do velho que tenta manter seus valores sólidos, ele fala de temas que lhe interessam e, de certa forma, estão cada vez mais raros no cinema atual (exceto em certos filmes de ação): a honra, a amizade, a dignidade, o amor.
Ripstein fez um filme fiel ao original de García Márquez. Todo o livro está no filme, exceto numa coisa: a personagem da prostituta interpretada por Salma Hayek. No livro, ela não existe. No filme. teve um caso com o filho que morreu. Fernando Luján e Marisa Paredes interpretam o casal. Ambos são impecáveis. Ela, além do mais, é quase irreconhecível no papel de uma mulher maltratada pela vida: exibe outra faceta do seu extraordinário talento, além da diva exuberante de "Tudo sobre Minha Mãe", de Pedro Almodóvar, em cartaz na cidade. Em Cannes
Marisa estava feliz, contente com o o filme de Almodóvar, mas também com o fato de o aval do seu nome ter permitido que Ripstein realizasse o dele. Uma história de amor, mas não um filme derramado. Um filme seco, o anticinema de lágrimas. Para ver e comparar com a retrospectiva do melodrama mexicano, em cartaz nesta 23.ª Mostra. É uma forma interessante de conferir como o gênero evoluiu. Louise - Também no Cinearte 1, mas às 19h25, passa outro destaque desta quarta-feira: "Louise" (Take 2), do francês Siegfried. O diretor estreante, o que o habilita a concorrer ao Troféu Bandeira Paulista, veio da música. É o autor da partitura de "Louise". É um filme com Élodie Bouchez, a extraordinária intérprete de "Rosas Selvagens" e "A Vida Sonhada dos Anjos". Ela interpreta uma garota das ruas, que vive de pequenos roubos e expedientes.
Siegfried fez seu filme baratinho, entre amigos. Nada muito importante, porque, para ele, a música é mais importante que o cinema. Ele não diz isso para subestimar o próprio trabalho, mas para dar mais prioridade ao que acredita. Para ele
a música pode ser mais importante, mas "Louise" mostra Siegfried como um verdadeiro cineasta. Seu filme faz o elogio do que os franceses chamam de école buissonire, Literalmente, é matar a aula, mas também é essa vagabundagem em que vivem os personagens de "Louise".
Siegfried não se identifica com ninguém, em particular, no cinema francês. Quer ser um corpo estranho. Mas recuando no tempo é possível buscar uma influência sobre o tipo de cinema que ele faz. É um autor dos anos 20 e 30, o Rimbaud do cinema francês, Jean Vigo. Com ele Siegfried compartilha o gosto pela juventude e pela rebeldia, uma coisa levando à outra, as duas explicando-se mutuamente.


